segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Do fundo do baú...

Olá Queridos Leitores!!

Hoje, revendo algumas fotos de três anos atrás, encontrei uma grata surpresa: uma foto de quando eu fui à praia (não pelo fato de ir à praia, pois não gosto de praia e sol... sou noturna) e estava revisando meu livro A ilha. 
Marquei na foto a ilha que deu origem ao meu livro. A visão em que a foto foi tirada é a mesma visão que a Melina (personagem principal do livro) tem da ilha onde o Christopher (personagem também principal) mora.
Puxa, que alegria rever uma foto dessas. Trás tantas lembranças... boas, mas só da parte da revisão do livro mesmo.



Por hoje era só.... se eu encontrar mais fotos "nostálgicas" eu posto por aqui.
Até semana que vem :)


O ciclo das sombras cap. 3/ pt. 2

Olá Queridos Leitores,




Como acontece toda a segunda-feira, vou postar mais uma parte do Ciclo para vocês :)

Cap. 3/ pt. 2:

Assim que Kimberly chegou à empresa, foi direto para a sua sala de trabalho e viu que Martin estava sentado esperando por ela.
            — Oi Martin — cumprimentou enquanto largava a bolsa e a pasta em cima de outra cadeira.
            — Oi Kim, — respondeu levantando-se da cadeira e se aproximando dela — ontem, quando eu passei aqui para ver você, a Penélope disse que você tinha saído para resolver uma questão na clínica em que seu tio está. Aconteceu alguma coisa? — Indagou preocupado.
            Por um segundo Kimberly quase disse: “Clínica? Eu não fui à clínica, fui à casa misteriosa...” Mas controlou-se a tempo de cometer um erro.
            — É verdade. Tive de sair mais cedo. Mas não foi nada grave, meu tio cismou que queria falar comigo. Queria me contar que recebera a notícia que a esposa, o irmão e o pai dele iam voltar de viagem. — Depois que disse isso, ficou com raiva de si mesma. Estava utilizando a doença do tio para encobrir uma falha sua. Não estava gostando nada das atitudes que vinha tomando ultimamente. Precisava parar com isso.
            — Puxa, e o que foi que você disse? — Indagou segurando a mão dela.
            — Fiz como a médica instruiu: disse que estava animada e que iria aguardar para ele me avisar quando o pessoal chegasse.
            Martin não respondeu nada, apenas a abraçou e disse solidário:
            — Sei que deve ser uma barra isso. Não poder contar a verdade a quem a gente gosta muito deve ser horrível. Mas qualquer coisa que precisar, conte comigo.
            Enquanto o abraçava, Kimberly sentiu uma forte pontada de remorso. Martin estava certo, era mesmo horrível não poder contar a verdade a quem se gostava de fato. Afastou-se dele e disse:
            — Sei que é complicado, mas eu preciso fazer isso. Imagino que estragaria toda a situação se eu dissesse a Douglas a verdade. — Estava dizendo isso mais para si mesma do que qualquer outra coisa.
            — Bem, não vou me tornar repetitivo, se precisar de mim, me chame. — Encaminhou-se até a porta e disse. — Não quer sair comigo hoje?
            “Mais uma mentira, só mais uma e estará tudo acabado” — pensou Kimberly prendendo a respiração.
            — Infelizmente, hoje eu vou ir de novo à clínica. Quero ver se Douglas melhorou. Podemos combinar outro dia, sim? — Perguntou tentando esconder o nervosismo.
            Martin ergueu os ombros e respondeu:
            — Sem problemas, só vamos deixar claro que você está me devendo um passeio.
            — Tudo bem — respondeu enquanto o observava sair da sala.
            Mal ele saiu e Penélope entrou. Aproximou-se discretamente da colega e disse:
            — Não aguento mais. Preciso falar: você está sendo boba. Por que não dá uma chance ao Martin? O cara está amarrado em você e você só o corta!
            Kimberly arregalou os olhos, não esperava ouvir isso de Penélope, mas teve de responder:
            — Gosto dele, mas como amigo e colega de trabalho. Já fui bem clara com ele. O que é que eu posso fazer?
            Isto era verdade. Kimberly sempre tivera o cuidado de deixar as coisas bem claras entre os dois e Martin sempre dissera que estava ciente da situação. Ela simplesmente não precisava de mais uma pessoa falando sobre isso.
            — Sério? — Indagou Penélope indo para sua mesa de trabalho.
            — Absolutamente sério — respondeu Kimberly dando o assunto por encerrado. Pegou alguns papéis da pasta que tanto lhe dera trabalho e mergulhou em suas atividades. Tinha que se distrair e fazer algo de útil até que chegasse o final do expediente.

            Após a volta do almoço, Vilton a chamou em sua sala e lhe perguntou sobre a situação de seu tio. Novamente Kimberly sentiu-se culpada. Estava mentindo, usando a debilidade do tio em seu benefício. Falou a mesma coisa que dissera a Martin pela manhã e se odiou por isso. Como lhe era difícil mentir. Já era bem complicado ter de conviver com a situação de Douglas e agora, tinha que usá-lo como válvula de escape. Precisava parar com isso antes que fosse tarde demais. E iria terminar com essa situação absurda no final daquele dia, custasse o que custasse.


Por hoje era isso, até semana que vem. Espero que gostem.
Deixem suas ideias e sugestões. Sua opinião é muito importante para mim.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O Ciclo das Sombras - Cap. 3/ pt. 1

Olá Queridos Leitores,

Trago mais uma parte do Ciclo hoje para vocês. Espero que gostem.




CAPÍTULO 3

Encontro


Mais uma vez, Kimberly passou pelo sono. Quando abriu os olhos e viu o relógio que havia sobre o criado-mudo, constatou que faltavam alguns minutos para que ele despertasse. Não sentiu vontade de ficar deitada até ouvir o “toque de levantar”, então resolveu sair da cama. A pasta, a chave e o envelope continuavam ali, parados, sobre o móvel como se estivessem lembrando-a que, o que ocorrera na noite anterior não fora fruto de sua imaginação.
“Vou precisar das chaves de novo” — pensou enquanto pegava a roupa que tinha separado para usar naquele dia. — Hoje vai ser um dia muito estranho — falou para si mesma enquanto entrava no banheiro para se arrumar.
Durante o banho, Kimberly tentava raciocinar sobre o que estava acontecendo com ela. Definitivamente, ela não era uma pessoa que se impressionava fácil com as coisas. Respeitava as pessoas, mas tinha de conter a vontade de rir quando as ouvia falar em signos, ascendentes e todo o resto de assuntos esotéricos. No seu entender, nada disso tinha influência na vida das pessoas, elas apenas se apoiavam nestes assuntos para tentarem explicar o motivo de seus fracassos e frustrações. “Não há nada além da vida aqui na terra.” — Pensava olhando para cima em um gesto de impaciência. Chegara a discutir algumas vezes com Penélope e Evelin quando elas afirmavam de pé juntos que o esoterismo e a magia faziam parte da vida cotidiana das pessoas. Nunca dissera francamente, mas achava que suas colegas de trabalho eram duas doidas que perdiam tempo com assuntos que não as levavam a lugar nenhum.
Mas agora... Agora Kimberly sentia-se forçada a olhar o assunto por outro ângulo. Os acontecimentos provavam que havia algo diferente e que ela sempre negara existir. Ela mesma estava sentindo algo estranho. Nos últimos dias sentia-se diferente, não sabia em quê aspecto, mas sentia-se mudada.
— Só espero não estar enlouquecendo — disse para si mesma enquanto passava as mãos no rosto para lavá-lo.
Quando se aprontou, tomou o café da manhã e saiu devagar do apartamento. Sabia que estava bem adiantada no horário, mas precisava passar na imobiliária antes de ir para a empresa. Enquanto encaminhava-se para um ponto de táxi, imaginava o que iria dizer ao gerente do turno da manhã para que ele concordasse com que ela permanecesse mais um dia com as chaves. Não seria uma tarefa fácil.

Quando saiu do táxi e se encaminhou para a imobiliária, percebeu que a mesma já estava aberta para o atendimento ao público. Com um suspiro, empurrou a porta de entrada e encaminhou-se até a recepção.
— Bom dia — cumprimentou a secretária — em que posso ajudá-la?
— Preciso falar com o gerente, porque preciso ficar mais um tempo com as chaves de uma casa. — Concluiu indicando as chaves para a secretária.
— Um momento, por favor — pediu enquanto discava um número no telefone.
Enquanto aguardava a secretária falar com alguém, Kimberly dirigiu-se até uma cadeira, sentou e guardou as chaves na bolsa. Desejava que o gerente não começasse a indagar sua atitude, pois ela não saberia o que responder a ele. Com certeza, não poderia dizer a ele que iria visitar o morador da casa que estava para vender. Soaria estranho.
— Kimberly, bom dia! — Cumprimentou Fernando tirando-a de seus pensamentos.
Ela quase saltou da cadeira com o susto que levara, não havia percebido a aproximação do gerente. Mais um ponto para adicionar à lista de mudanças que estavam ocorrendo com ela desde que se envolvera com a bendita casa.
— Não o vi chegar — desculpou-se enquanto levantava.
Fernando apertou a mão dela e esclareceu:
— Eu não iria trabalhar pela parte da manhã, mas fiz questão de vir para receber as chaves e concluir, como estou fazendo agora, que você é uma pessoa de palavra — e estendeu a mão para recebê-las.
Kimberly sorriu sem jeito e disse:
— Eu trouxe as chaves como o combinado, felizmente eu encontrei a pasta que havia esquecido, mas preciso lhe fazer mais um pedido.
Fernando ergueu as sobrancelhas demonstrando que não havia entendido o que ela lhe disse.
— Sei que parece estranho, mas preciso das chaves emprestadas novamente, somente hoje e amanhã lhe devolverei e não incomodarei mais.
Ele a analisou como se estivesse vendo uma criança pedindo um brinquedo em uma loja.
— Mas se você achou a pasta, por que quer ficar mais um dia com as chaves? Isso não é nenhuma desculpa para dizer que as perdeu, não é?
— Não — apressou-se em responder, enquanto abria a bolsa e procurava. No momento seguinte, ela mostrava as chaves para Fernando, que pareceu respirar mais aliviado. — As chaves estão aqui, como pode ver, eu não as perdi, mas é que realmente preciso voltar à casa mais uma vez, só mais uma vez. Infelizmente, não posso explicar o motivo, mas eu preciso voltar lá. Se quiser que eu deixe o dinheiro da caução, eu deixo. Deixo até cinquenta reais se for o caso, mas me ajude mais esta vez, por favor.
Ela parecia tão desesperada em retornar a casa e tão sincera em seus argumentos que ele não teve alternativa a não ser concordar com ela. Como um pai que acaba aceitando o pedido do filho, Fernando disse:
— Está bem, percebo que você está precisando mesmo voltar lá. Não há necessidade de deixar o dinheiro, mas faço um trato: ou você me devolve estas chaves amanhã, sem falta, aconteça o que acontecer, ou eu vou ter de tomar atitudes mais sérias. Está bem assim?
A resposta que Kimberly deu foi um largo sorriso.

— Obrigada, — disse apertando a mão de Fernando — não se preocupe, devolverei as chaves amanhã, no mesmo horário — e saiu apressadamente para a rua.


Até a próxima semana,


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O Ciclo das Sombras - Cap. 2/ pt. 4

Olá Queridos Leitores,

Segue a parte quatro do segundo capítulo do Ciclo.


Acordou deitada em sua cama. Precisou de alguns minutos até conseguir entender onde estava e o que estava acontecendo. Lentamente, sentou-se na cama e olhou em volta receosa de que não estivesse sozinha. Mas estava só, não havia ninguém ali, a não ser ela.
— Que loucura — murmurou — o que foi aquilo que aconteceu? — Em seguida retesou-se ao lembrar o motivo pela qual estivera na casa. — A pasta, eu esqueci de novo a p... — interrompeu a frase quando olhou para o lado e viu a pasta em cima do criado-mudo. A chave da casa estava em cima da pasta e havia um envelope.
Kimberly franziu o cenho e sentou-se melhor na cama, pegou o envelope branco e o abriu lentamente. Havia uma folha feita de um papel muito delicado, especial, que Kimberly reconheceu. Na empresa na qual trabalhava, sabia que aquele papel era muito caro e só era usado pelos clientes em ocasiões muito solenes. Aproximou o papel do nariz, aspirou o perfume e se sentiu levemente tonta.
— Até o papel é perfumado! Que homem é esse — perguntou para o vazio do quarto.
Havia algumas frases que, a princípio, ela não conseguiu ler, porque estavam escritas em alemão, mas depois ela percebeu que ele havia escrito a tradução logo mais abaixo no papel. E a letra... era uma letra desenhada, parecida com as letras de séculos atrás quando não havia tecnologia nenhuma e as pessoas se esmeravam ao escrever o que quer que fosse, desde um documento oficial a uma simples carta.
Ich habe den Ordner für Sie, er ist wichtig. Und auch den Schüssel zum Haus, so Können sie zurükommen… Herzliche Grüsse Ulrich.
(Trouxe a pasta para você, porque sei que é muito importante. Também trouxe a chave da casa para que você possa voltar... Beijos, Ulrich.)
“Ele existe mesmo então” — pensou enquanto guardava o papel no envelope. — “Ele existe e me trouxe em casa...” — terminou o pensamento e sentiu medo. O homem era um estranho, como sabia onde ela morava? Kimberly não se lembrava de ter escrito o endereço residencial em sua agenda. E se ele estivesse se aproximando com intuito de roubá-la ou de fazer outra coisa? — “Se bem que, se ele quisesse fazer alguma coisa, já teria feito.” — Concluiu enquanto deitava-se e tentava dormir, mas sabia que, naquela noite, não conseguiria mais dormir.
Tentou não pensar em nada, mas não adiantava, o homem que falava alemão e se chamava Ulrich não saía de sua cabeça. Por que dera continuidade à curiosidade da casa? Agora estava envolvida demais para voltar atrás, enquanto não compreendesse o que realmente estava acontecendo, não descansaria. Havia muitas coisas para entender: os sonhos que não eram sonhos e pareciam reais e o fato de um homem que ela nunca vira na vida existir de verdade.

“E os olhos,” — pensou enquanto, finalmente, adormecia — “os olhos verdes iluminados...”


Até semana que vem,


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Ciclo das Sombras - Cap. 2/ pt. 3

Olá Queridos Leitores,

Depois de muito tempo cá estou eu publicando mais um pouco do meu livro. Espero que gostem.]


Quando chegaram ao prédio onde Kimberly morava, Martin questionou enquanto ela descia do carro.
— Tem certeza que não houve nada de errado? Você está estranha...
Ela lhe dirigiu um sorriso forçado e respondeu:
— Obrigada por se preocupar comigo, mas está tudo bem. Eu simplesmente me assustei com uma bobagem de nada, não se preocupe com isso. — Disse e lhe dirigiu um lindo sorriso.
Martin respondeu mais aliviado:
— Se você diz que está tudo bem, então está tudo bem. Até amanhã — despediu-se entrando no veículo do primo.
— Até.
Kimberly ficou observando o carro de Rogério se afastar e sumir ao dobrar a esquina mais adiante e então entrou no prédio.
Assim que abriu a porta do apartamento, prosseguiu em sua rotina. Enquanto realizava suas tarefas, lembrava-se da conversa com Vilton. Tinha que admitir que estava exultante! Sempre esperara ser reconhecida e, com o reconhecimento, não cabia em si de tanta felicidade. Era ótimo saber que as pessoas observavam o seu esforço e valorizavam isso.
“Puxa, um aumento de salário! Meu Deus, que maravilha!” — Pensou contente.
Mais tarde, depois de tudo organizado, Kimberly preparou-se para dormir. Deitou na cama ainda pensando no aumento do salário quando, de repente, sentiu um frio no estômago.
— Ai não! — Falou enquanto sentava-se rapidamente. — A pasta ficou na casa! Esqueci a droga da pasta!
Olhou instintivamente para o relógio e percebeu que, pelo horário avançado, não adiantaria mais nada a não ser esperar. A imobiliária, com certeza, já estava fechada.
Revirou-se na cama e resolveu levantar e ir até a cozinha tomar um pouco de água. Tinha perdido completamente o sono com o fato.
— Como posso ter esquecido a pasta mais importante da minha vida? — Perguntava em voz alta enquanto se servia de água. — Como pude esquecer isso? Onde ando com a cabeça?
Bebeu alguns goles enquanto tentava encontrar uma resposta plausível para o que acabara de fazer. Era inadmissível tal descuido. Isso podia lhe causar uma redução de cargo e uma super redução em seu salário, se não lhe custasse o próprio emprego.
Enquanto voltava para o quarto, pensava no que a fizera esquecer a pasta na casa. A semelhança do sonho que tivera com a realidade era impressionante! Tantas coisas estranhas acontecendo ao mesmo tempo em sua vida que não era de admirar que fosse acabar se descuidando de alguma coisa. Ainda bem que ela sabia perfeitamente onde estava a pasta. Deixara os documentos em cima da mesa onde estava o quadro do homem misterioso.
— Homem misterioso... — falou baixinho para si — não é tão misterioso... Agora ele tem um nome: Ulrich von Goeth. Primogênito da família real de Bonn. Que loucura — disse enquanto deitava-se e tentava dormir.
Mas foi difícil. Toda a vez que estava querendo adormecer, as imagens da casa lhe viam à mente e ela acordava e então recomeçava a fazer os planos para o dia seguinte: no final do expediente, ela iria até a imobiliária e pegaria as chaves, então voltaria à casa, pegaria a pasta e estaria tudo perfeito. Só não conseguia entender como é que Martin não vira a pasta em cima da mesinha quando ele e o primo foram olhar os demais andares.
— Martin é tão observador... deveria ter visto iss... — disse enquanto finalmente adormecia.

Na manhã seguinte, Kimberly acordou antes do despertador tocar. Arrumou-se, tomou café rapidamente e saiu de casa ansiosa para chegar à empresa. Pegou o ônibus do horário anterior ao seu e chegou antes de seus colegas. Estava apressada, porque queria pesquisar o endereço da imobiliária sem que ninguém visse. Se caso Martin chegasse a convidá-la para sair depois do expediente, ela diria que tinha um programa qualquer e marcaria para outro momento. Não queria que ele soubesse que ela tinha esquecido uma pasta tão importante em uma casa para vender.
Pegou o guia de endereços e localizou o nome da imobiliária. Anotou o número do telefone e ligou. Assim que a secretária atendeu, Kimberly perguntou enquanto olhava para a entrada da porta para verificar se algum dos seus colegas havia chegado:
— Por favor, qual é o horário de encerramento de vocês?
— Hoje, excepcionalmente, fecharemos às cinco e meia, senhora.
— Não! — Gritou Kimberly ao telefone.
— O que foi senhora? — Perguntou a secretária, pois não tinha entendido o motivo do grito.
— Por favor, — pedia desesperada — pode fazer um favor para mim? Ontem eu estive com um colega meu, visitando uma casa que está para vender. Acontece que eu acabei esquecendo uma pasta muito importante de trabalho na casa e preciso voltar antes que alguém pegue. Preciso ir até aí pegar a chave para buscar minha pasta, mas só saio do trabalho às seis da tarde, poderia me ajudar? É muito importante para mim, meu emprego depende disso!
Silêncio do outro lado da linha.
— Alô, você ainda está aí? — Perguntou quase gritando de novo.
— Um momento, senhora. Vou lhe passar o responsável.
Mais alguns angustiantes minutos se passaram até que um homem a atendeu:
— Sim, em que posso ajudá-la?
Tentando aparentar tranquilidade, Kimberly contou novamente o que havia acontecido e terminou:
— Por favor, só peço para ficarem mais meia hora abertos. Eu preciso pegar a pasta!
— Tudo bem. Não se preocupe, deixe-me só verificar se as chaves encontram-se na imobiliária e já iremos verificar a sua situação.
— Tudo bem, eu aguardo. Muito obrigada — respondeu esperançosa.
Os minutos que se seguiram pareceram uma eternidade. Por um momento, ficou com receio de que o moço lhe dissesse que a chave se encontrava em posse de outro possível comprador e então a porcaria estaria feita. A primeira coisa que iria fazer era escrever a carta de demissão. Seu chefe não a perdoaria, ele...
— Olá, ainda está aí? — Perguntou o homem.
— Sim, — respondeu Kimberly apertando o fone com tanta força que seus dedos chegaram a doer.
— Nós estamos com as chaves aqui sim. Como hoje sou o gerente de plantão, ficarei esperando a senhora aqui, até as seis e meia, no máximo. Se caso você não estiver aqui até o horário, deixarei a chave separada para o colega da manhã com as instruções, está bem?
— Muito obrigada! Não se preocupe, estarei aí antes de você ir embora, não farei você esperar em vão. Muito obrigada mesmo!
Mal tinha colocado o telefone no gancho e Penélope acabava de entrar na sala. Largou a bolsa em cima da mesa e disse bem humorada:
— Madrugou hoje, hein?
Kimberly quase levou um susto quando viu a colega entrar, estava tão absorta na ideia de que iria conseguir pegar as chaves que nem a viu chegar.
— É o projeto da loja que está me deixando inquieta, — desculpou-se — quero terminar ele o quanto antes — terminou suspirando.
Agora, as coisas iriam terminar tranquilamente. Mas não era bem isso que o Destino tinha em mente para Kimberly...


O dia passou numa lentidão absurda. Por mais que tentasse, Kimberly não conseguia se concentrar. Qualquer assunto que tentava resolver era cortado pela ansiedade de ir buscar a “pasta de sua vida” na casa misteriosa. Havia enviado um e-mail para Vilton avisando que precisaria sair uns quinze minutos antes do expediente terminar, pois recebera uma ligação da clínica em que seu tio estava lhe informando que Douglas precisava muito falar com ela. Meia hora depois, ela recebeu o e-mail de confirmação do chefe dizendo que não havia problema e, se ela quisesse, poderia sair às cinco e meia. Afinal, era um assunto de família, devia ser importante.
“Ele nem sabe o quanto é importante” — pensou Kimberly sentindo um enorme alívio.
Quando ela olhou para o relógio que havia em cima de sua mesa de trabalho, constatou que eram cinco horas. Ainda faltava meia hora para sair e então esperou. Verificou os e-mails novamente, navegou por sites de Design tentando encontrar novas ideias para o projeto, mas nada resolvia a angústia que estava sentindo. Ansiava por sair dali o mais rápido possível e salvar a pasta. Não teria descanso enquanto não estivesse com ela embaixo do braço. Quando olhou novamente para o relógio, surpreendeu-se ao constatar que haviam passado cinco minutos do horário que planejara sair. Arrumou as coisas rapidamente e, antes de sair, explicou aos colegas o motivo. Pediu para Penélope avisar Martin, caso ele perguntasse por ela.
Saiu da empresa em disparada até o ponto de táxi. Por sorte, havia um táxi esperando. Caminhou a passos rápidos até o táxi e disse ao motorista:
— Boa tarde, estou com certa pressa para chegar à Rua Julieta Pinto César nº. 87. Pode me levar até lá?
— Com certeza — respondeu o motorista sorridente. — Qual o caminho que a senhorita quer fazer?
Kimberly olhou pela janela do táxi e simplesmente respondeu, enquanto encostava-se no banco:
— O caminho mais curto, por favor.
Minutos antes das seis e meia, Kimberly desceu do táxi e saiu correndo para entrar na imobiliária. Abriu a porta muito ansiosa e só começou a se acalmar quando um homem, que ela julgou ser o mesmo que conversara com ela ao telefone, veio em sua direção.
— Boa noite. — Cumprimentou ele estendendo a mão. — Você deve ser a Kimberly, sim?
Ela balançou a cabeça afirmativamente, pois tentava recobrar o fôlego da correria de antes.
Ele sorriu e disse:
— Sou Fernando, o gerente de plantão. Aqui estão as chaves — disse entregando-as para Kimberly. ─ Normalmente, nós pedimos uma caução de vinte reais, mas como sei que é um caso excepcional, vou entregar as chaves para você e confiarei que amanhã, bem cedo, você as trará de volta, está bem assim?
Com mais calma, ela respondeu:
— Com certeza, entregarei sim. Agradeço muito o que fez por mim, meu emprego depende dessa pasta.
Fernando cruzou os braços e disse:
— Então vá pegar a pasta. Sabemos que, hoje em dia, o emprego não anda fácil. Boa noite e boa sorte.
— Boa noite, — respondeu ela virando-se e saindo novamente apressada.
Teve de caminhar uma quadra a mais até encontrar o próximo ponto de táxi. À medida que se aproximava sentia o coração aos pulos, não havia táxi nenhum e ela não queria esperar mais até conseguir pôr as mãos na bendita pasta.
“Também que idiota que eu sou,” — pensava enquanto caminhava — “por que fui me esquecer de algo tão importante? Onde eu estava com a cabeça?”
No momento em que parou para aguardar o táxi percebeu que o motivo que a fizera esquecer a pasta fora porque saíra correndo como uma criança assustada ao sentir que havia mais alguém naquele quarto. Só isso.
O baque que levou quando se deu conta da causa do esquecimento a deixou com um frio desagradável no estômago. Iria voltar à casa sozinha e desta vez não era em sonho, era na vida real. Não haveria ninguém para ajudá-la se realmente o homem que aparecera para ela em sonho, resolvesse aparecer agora.
“Bem,” — pensou com um suspiro resignado — “prefiro morrer de susto a perder o meu emprego.”
Em seguida um táxi chegou e Kimberly embarcou nele, mal fechou a porta do veículo e pediu:
— Para a Avenida Senador Salgado Filho, quase entrada da Santa Isabel, por favor.
Enquanto aguardava chegar ao destino, desejava que encontrasse a pasta o mais rápido possível. Só iria sossegar quando a tivesse em seu poder. Procurava não pensar na situação, mas tinha de confessar que estava com grande raiva de si mesma. Não gostava, de forma alguma, de esquecer alguma coisa, ainda mais algo tão importante.
“A única explicação para isto é que eu estou ficando louca... com certeza, farei companhia para meu tio logo, logo” — pensou sorrindo tristemente.
— Pronto, chegamos — anunciou o taxista interrompendo o devaneio de Kimberly.
— Obrigada. — Pagou o valor da corrida, saiu do táxi e permaneceu por alguns segundos olhando o veículo desaparecer mais adiante na curva. — Bem, não há volta agora — disse baixinho para si mesma. — É seguir em frente.
Caminhou até o portão de entrada, o mesmo que vira tão nitidamente nos sonhos e o abriu com certa dificuldade. Com certeza, ele não era aberto fazia tempos. Fechou-o atrás de si e encaminhou-se para a porta de entrada. Sentiu uma fisgada no estômago quando se lembrou que o primo de Martin tivera dificuldades em abrir a porta. Se ele, que aparentava ser um homem forte quase não conseguira abrir a porta, o que diria ela?
— Não vou sofrer por antecipação, — disse para si mesma — a porta vai abrir, sim. — Respirou fundo, colocou a chave na porta e girou, torcendo que não acontecesse nada de errado.
A chave girou sem dificuldade alguma e a porta abriu com um leve rangido.
— Puxa, os caras da imobiliária são bons mesmo. Arrumaram a porta de um dia para o outro. Querem mesmo vender a casa para o Rogério — concluiu enquanto entrava na sala.
Encaminhou-se para o interruptor com a mesma facilidade de antes. Acendeu a luz e olhou por um momento para as escadas que levavam ao segundo andar. Fora lá, na mesinha do corredor, que esquecera a pasta e tinha que ir até lá para pegá-la. Olhou em volta esperando ver algo que chamasse a sua atenção, mas a sala permanecia normal, não havia nada de diferente ou que indicasse a presença de outra pessoa. Respirou fundo mais uma vez e caminhou decidida até as escadas. Procurando manter a calma e os batimentos do coração menos acelerados, Kimberly subiu o lance de escadas e parou de frente para o corredor. Levou a mão direita à parede e acendeu o interruptor de luz. O corredor iluminou-se e ela respirou aliviada. A pasta continuava lá, no mesmo lugar e do mesmo jeito que ela deixara na noite anterior.
— Graças a Deus eu a encontrei — disse correndo para pegar a pasta.
Estendeu a mão e pegou o objeto que tanto a deixara nervosa e dispersa durante o dia todo. Apertou-a contra o peito e fechou os olhos por um minuto. Quando os abriu observou mais atentamente o quadro que havia acima da mesinha. O homem que fora pintado era realmente lindo. Os olhos tinham um tom de verde além do que se via por aí, não pareciam naturais. Talvez o pintor quisesse ter dado um toque especial à obra e criara aquele verde azulado que chegava a ser hipnótico. E os cabelos dele foram pintados com uma realidade impressionante, dava a impressão que se a pessoa estendesse a mão à pintura conseguiria pegar uma mecha deles. Eram extremamente pretos e brilhosos e caíam como uma cascata ondulada pelos ombros dele.
— Herr von Goeth — suspirou Kimberly — primogênito da Família Real de Bonn... é tão lindo... nem parece real — murmurou para si mesma.
Aber ich bin, meine Prinzessin, ich bin. (Mas eu sou, minha princesa, eu sou) — disse de repente uma voz grave atrás dela.
Kimberly girou tão rápido que temeu perder o equilíbrio e cair. Apoiou-se como pôde na mesinha e o fez tão bruscamente que quase a derrubou também. Era ele! Ele estava diante dela! E não era um sonho, era real! A única coisa que ela conseguiu fazer foi olhar para os olhos dele e constatar que a pintura do quadro não acrescentara nada, o verde azulado era, de fato, a cor dos olhos dele.
Gute Abend (boa noite) — ele cumprimentou com voz grave.
Kimberly não conseguiu emitir som nenhum, só conseguiu olhar para ele e tentar controlar a respiração que estava muito rápida. Ele avançou um passo em sua direção e ela pôde sentir o perfume doce amadeirado que sentira tantas outras vezes. Por mais que tentasse, não conseguia normalizar a respiração e começava a se sentir tonta. Se não se controlasse, na certa desmaiaria.
Ruhig meine Liebe. (calma, minha querida). Não precisa ficar nervosa... Ich bin hier (eu estou aqui).

Aquilo foi tudo o que Kimberly não precisava no momento, ficou tão nervosa que a respiração ficou mais acelerada e a tontura aumentou mais ainda. A única coisa que conseguiu ver antes de desmaiar foi os olhos verdes brilhantes dele aproximando-se dela.

Por hora é isso. Até a semana que vem.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

O Ciclo das Sombras - Cap. 2/ pt. 2

Olá Queridos Leitores,

Segue o Capítulo 2, parte 2 do Ciclo das Sombras.

No dia seguinte Kimberly acordou atrasada. O relógio tinha despertado às seis e meia, mas ela só foi acordar às sete e quinze. Levantou de um salto da cama e tentou fazer tudo o que fazia antes de ir trabalhar em quinze minutos, pois tinha que pegar o ônibus às sete e meia. Tomou banho, se arrumou, tomou café o mais rápido que pôde e, antes de sair de casa, olhou-se no espelho que havia perto da porta de entrada do apartamento. Levou um susto e recuou alguns passos para trás.
            Estava horrível, parecia que não tinha dormido a noite toda e estava com olheiras bem acentuadas, sem falar que, ao se dar conta do fato, sentiu uma tontura tão forte que teve de se sentar na cadeira que havia ao lado da porta de entrada.
            — Deus... — murmurou enquanto passava a mão pelos cabelos — o que foi que aconteceu ontem à noite? Estou horrível e não me sinto nada bem...
            Levantou-se da cadeira devagar, temendo sentir-se tonta de novo. Pegou a bolsa e saiu do apartamento lentamente. Quando chegou ao saguão de entrada, parou subitamente quando se lembrou:
            — A pasta do projeto! Não acredito que esqueci!
            Deu meia volta para tentar pegar o elevador quando o mesmo fechou a porta e subiu. Alguém o tinha acionado antes. Dessa forma, Kimberly teve de esperar o elevador subir e descer de novo até que pudesse ir ao andar que queria. Olhou no relógio e viu que já passava das sete e quarenta. Estava mais do que atrasada e já não poderia mais pegar o ônibus de sempre. Olhou para o marcador do elevador e constatou que ele estava parado no décimo andar. Passaram alguns segundos e ele continuava parado, então Kimberly decidiu subir correndo as escadas. Como morava no quinto andar, não teria muitos degraus para subir e, com certeza, chegaria primeiro no apartamento se não esperasse pelo elevador. Saiu em disparada pelas escadas e, quando finalmente chegou à porta do apartamento, teve de se apoiar na parede para recobrar o fôlego. Estava exausta, o que era estranho, pois ela não se cansava facilmente. Já subira aqueles cinco andares correndo várias vezes e nunca se sentira tão cansada e fraca como se sentia agora. Tinha alguma coisa estranha acontecendo.
            Abriu a porta novamente e pegou a pasta que deixara em cima da mesa. Nem esperou pelo elevador e desceu correndo as escadas. Só foi parar de correr quando chegou à parada. O relógio marcava oito e dez.
            “Droga,” — pensou desanimada — “detesto chegar atrasada, ainda mais hoje que eu tenho um monte de coisas para fazer... que quarta-feira horrível...”
            O ônibus chegou as oito e trinta e cinco em frente à Arts Design.


            Quando Kimberly chegou em sua sala, seus colegas encontravam-se reunidos e logo vieram saber o que é que tinha acontecido. Era algo totalmente improvável o fato de Kimberly se atrasar no serviço.
            — O despertador tocou, mas eu não ouvi... — dizia enquanto largava suas coisas sobre a mesa. — E quando eu estava pronta para sair, percebi que tinha esquecido a pasta mais importante da minha vida em casa... e o elevador não ajudou, quando eu fui entrar, alguém o chamou antes e eu perdi mais uns preciosos minutos esperando. Como ele não vinha nunca, decidi subir as escadas correndo. E, nessa correria toda, só peguei o ônibus às oito e vinte... bem certinho. Era assim mesmo que eu queria começar minha quarta-feira — terminou sentando-se na cadeira e respirando fundo.
            Penélope que estava perto da amiga falou baixinho para que Brian não ouvisse:
            — Além desse atraso todo... o que foi que aconteceu com você? Você está com um semblante terrível... parece que não dormiu a noite toda! Quer um chá ou um café?
            Kimberly ajeitou os cabelos com as mãos e respondeu:
            — Acho que sim, um chá ia me fazer bem. Na verdade, eu dormi a noite toda, realmente não sei o que foi que me deixou assim, tão cansada...


            O resto do dia passou muito rápido e Kimberly nem viu o tempo passar, pois se dedicou exclusivamente ao projeto da loja e não desviou a atenção para mais nada que não fosse o projeto.
            No final da tarde, antes de terminar o expediente, Vilton foi até a sala de Kimberly e disse:
            — Kim, posso falar com você um instante?
            — Claro, — respondeu enquanto organizava os papéis.
            Assim que terminou de juntar e colocar os papéis do projeto dentro da pasta, dirigiu-se à sala do chefe. No caminho, pensou:
            “O que será que aconteceu? Será que ele vai me dar uma letra porque eu cheguei atrasada hoje? Será que vai me despedir? Ai, meu Deus...”
            Logo que entrou na sala de Vilton, ele disse:
            — Sente-se Kim, precisamos conversar.
            Ela não aguentou mais e começou:
            — Sobre o atraso, peço mil desculpas, não foi intenção minha. Prometo que...
            — Calma — disse Vilton interrompendo-a. — Não é nada disso. Sossegue um pouco, você tem a mania de se preocupar com as coisas sem nem ao menos saber do que se tratam.
            No mesmo momento, Kimberly se acalmou e ficou ouvindo o que o chefe tinha a dizer.
            — Eu a chamei aqui, porque preciso dizer algumas coisas importantes que só posso dizer pra você.
            Kimberly não estava entendendo nada.
            — Bem, em primeiro lugar, gostaria de dizer, sem puxar o saco, que você é a minha melhor funcionária desde que entrou aqui. Todos os seus colegas são maravilhosos também, são perfeitos, mas não são a perfeição que eu procuro. Você sim, além de saber o que está fazendo, você faz o seu trabalho com emoção. Eu observo a dedicação com que você executa cada tarefa que lhe é passada. A criatividade, então nem se fala.
            Kimberly estava ficando de boca aberta com tantos elogios. Chegara à sala de Vilton temendo o pior e ele só lhe dizia coisas boas. Tinha que parar imediatamente com a mania de esperar sempre pelo pior. Havia coisas boas na vida.
            — Vi o que você fez com relação à senhorita Dvenau. Foi simplesmente maravilhoso, ninguém teria feito melhor. Ela simplesmente não reclamou mais do convite e eu fiquei sabendo depois que ela comentou com o pai que achou o convite perfeito e muito lindo. Elogiou um monte os serviços que nós prestamos a ela.
            Kimberly ouvia com atenção cada palavra que Vilton dizia. Ficava orgulhosa consigo mesma por saber que era capaz de prestar um serviço com qualidade.
            — Então, — continuou ele — por isso, por toda a sua dedicação, estou oferecendo um cargo mais alto para você.
            Kimberly não pôde deixar de se admirar, não imaginara que fosse ouvir o que ouviu.
            — Então, aceita?
            — Cl-claro que sim — gaguejou. — Ficarei lisonjeada e muito contente por saber que meu trabalho é importante e pode contribuir de alguma forma aqui, na empresa. — Terminou com um largo sorriso.
            Vilton também sorriu e disse:
            — Que bom que você gostou. A primeira coisa que vai ser alterada é o seu salário. Depois vou puxar uma linha de telefone da minha mesa até a sua para que, qualquer coisa que eu precisar, eu possa entrar em contato com você. Com relação a sua mesa, imaginei deixar tudo como está, porque penso que você não iria querer ficar isolada dos seus colegas e nem eles de você — fez uma breve pausa e disse — percebi que vocês seis são muito amigos e não seria justo se eu desmanchasse isso.
            Kimberly não cabia em si de tão feliz que estava.
            — Estamos combinados então, Kim? — Perguntou Vilton.
            — Estamos sim, senhor. Agradeço muito a oportunidade que está me oferecendo, com certeza, não vai se arrepender.
            Ela ia sair da sala quando ele lhe disse, enquanto se levantava e caminhava em sua direção:
            — Ah... mais uma coisa Kimberly. — Parou na frente dela e disse. — Sei que não sou seu pai nem nada parecido. Sei que você tem passado por maus momentos e, por isso, digo que você pode contar sempre comigo. Imagino que os seus colegas também devem ter dito isso a você, então, sendo assim, fica mais um pra se preocupar. Procure não exigir demais de você e não se culpe tanto. Atrasos acontecem, não faça disso uma tempestade em copo d’água. Se quiser, pode vir trabalhar somente à tarde. Tenho a observado e acho que você anda meio cansada ultimamente.
            Kimberly não esperava ouvir isso dele. Ficou meio sem jeito e tentou responder algo coerente.
            — Está bem, senhor. Vou procurar não me cobrar tanto. Talvez esse meu cansaço todo seja mesmo muita cobrança. Vou cuidar melhor disso e muito obrigada por tudo — disse enquanto saía da sala e ia para a sua.
            Quando chegou, os seus colegas já tinham ido embora. Com calma, continuou a organizar o restante dos papéis que deixara sobre a mesa. Quando estava com tudo pronto, Martin surgiu na porta e disse animado.
            — Olá colega, preparada para a visita importante? — Perguntou sorridente.
            Ela lhe lançou um sorriso animado e respondeu:
            — Claro que sim, só estava organizando a papelada para amanhã. Mas já estou saindo.
            Pegou a pasta do projeto e acompanhou Martin até o elevador. Quando chegaram ao saguão de entrada, o primo de Martin já os esperava.
            — Olá Rogério! — Cumprimentou Martin. — Esta aqui é a Kimberly, minha colega de trabalho. Ela quer ir conosco visitar a casa.
            Kimberly surpreendeu-se quando viu Rogério. Ele era muito parecido  com Martin e, se não fossem primos, ela diria que eles eram irmãos devido à semelhança entre eles.
            — Olá, tudo bem? Fiquei curioso com relação à casa, deve ser muito linda mesmo. O Martin me falou que você tem verdadeira adoração por ela.
            — É — respondeu meio sem jeito — acho a casa mesmo muito bonita.
            — Bem, — disse Rogério — o que estamos esperando, vamos lá. Vamos pegar o carro.
            Seguiram o primo de Martin até um estacionamento que havia próximo à empresa. Assim que se acomodaram no veículo, Rogério deu a partida e disse para o primo:
            — Martin, sabe qual é o melhor trajeto para chegar até a casa?
            — Sei, mas você não tem que pegar as chaves antes na imobiliária?
            — Eu já fiz isso antes para que nós não perdêssemos tempo.
            — Ô beleza, isso é que é eficiência — respondeu Martin sorrindo e em seguida começou a explicar o trajeto ao primo.
            O coração de Kimberly batia acelerado. Esperara e desejara por um momento como esse há muito tempo e, agora que iria finalmente conhecer a casa, estava ansiosa demais.
            “Estou parecendo o meu tio naquele sábado quando cheguei com o lanche...” — pensou sorrindo.
            Rogério estacionou em frente a casa e desceu do carro. Foi até o portão de ferro e o abriu para poder estacionar o veículo no pátio. Após ter estacionado o carro, disse para os outros:
            — Bem pessoal, podemos descer agora. Vamos ver como a casa está por dentro.
            Todos desceram em silêncio. Instintivamente, Kimberly se aproximou mais de Martin, que colocou o braço em torno dos ombros dela. Caminharam até a porta de entrada e aguardaram Rogério abrir a porta.
            — A corretora me disse que a chave tinha algum problema para abrir, mas que se eu ficasse com a casa, eles dariam um jeito — disse enquanto forçava a chave na porta.
             Rogério levou mais alguns segundos tentando abrir a porta. Por um momento, Kimberly achou que ele iria quebrar a chave e que tudo estaria perdido, mas respirou aliviada quando a porta, finalmente, abriu.
— Aleluia! — Disse Martin sorrindo. — Não viemos aqui em vão, não é?
           — Você e suas brincadeiras. Não mudou nada, não é primo? — Indagou Rogério enquanto entrava na sala.
            Martin entrou logo atrás do primo e Kimberly o seguiu. Quando colocou os pés na sala, seu coração quase saltou para fora da boca. O que ela estava vendo ou tentava ver, pois a sala estava imersa na escuridão, era exatamente o que ela tinha visto no sonho da noite anterior. Não havia o que tirar nem pôr. Ela tinha os detalhes da sala tão nítidos em sua mente que não esperou por mais ninguém, saiu caminhando por entre os móveis e foi direto na direção do interruptor de luz.
            — Será que alguém saberia dizer onde está o interrup... — disse Rogério, mas sua frase morreu antes de terminar, pois Kimberly tinha acendido a luz naquele instante.
            — Como... como conseguiu achar o interruptor de luz sem bater em nada, Kim? — Indagou Martin impressionado.
            — Sei lá, — respondeu — acho que foi intuição. Ninguém se machucou não foi?
            — Não... — responderam Martin e Rogério surpresos.
            Com a luz acesa, Kimberly pôde olhar melhor para a sala. Era muito bonita e decorada com um gosto refinado. Só não conseguiu entender o motivo de uma casa estar para vender com todos os móveis dentro. Normalmente isso só acontecia quando era para alugar.
            — Olhem só que sala mais bonita. — Dizia Rogério enquanto observava atentamente cada detalhe dos móveis. — O pessoal da imobiliária me falou de alguns móveis, mas não me disse que a casa viria mobiliada.
            — Rogério? — Chamou Martin.
            — O que foi? — Respondeu Rogério curioso.
            — O que foi que o pessoal da imobiliária falou sobre esta casa? — Perguntou parado no meio da sala.
            — Eles disseram que pertenceu a um homem muito rico, mas que havia falecido bruscamente em um acidente de carro. Não tinha familiares, apenas parentes muito distantes que resolveram vender a casa, porque não queriam ficar com mais uma preocupação. Sabe como são essas coisas... IPTU, coisas para arrumar... tudo isso é um gasto desnecessário se a casa não tiver utilidade.
            — E as criaturas quiseram até se livrar dos móveis também? — Indagou mostrando com a mão todos os móveis da sala.
            — Olha Martin, eu não sei o que é que se passou na cabeça desse pessoal, mas o que sei é que, se eles quiserem deixar os móveis, não tem problema nenhum... — sorriu e disse — por mim, poderiam até deixar as contas pagas também.
            O que Rogério disse pareceu pôr fim ao assunto e, novamente, os três ficaram em silêncio. Logo em seguida, Rogério foi averiguar a cozinha. Assim que ficaram a sós, Martin perguntou:
            — E aí? O que está achando da tão famosa casa? Imaginava ela assim?
            Kimberly quase ia responder: “Sim, é exatamente do jeito que eu vi em meus sonhos, pois eu já estive aqui antes. Foi por isso que eu não bati em nada quando a sala estava às escuras.” — Mas limitou-se a dizer:
            — É... imaginei algo mais simples, mas é bem mais requintada... muito linda mesmo.
            — Primo — chamou Rogério da cozinha — pode dar uma chegadinha aqui? Encontrei uma ideia genial para a cozinha!
            Martin parou por um segundo indeciso se ia ou ficava e Kimberly lhe disse:
            — Vá lá... eu me viro por aqui, vou aproveitar para olhar o resto da casa... — como Martin continuou parado, ela falou — vá de uma vez, eu não vou me perder aqui — terminou sorrindo.
            No momento em que Martin entrou na cozinha, Kimberly imediatamente olhou para as escadas e assustou-se. Elas eram exatamente como em seu sonho, exatamente iguais!
            — Se for assim — disse baixinho para si mesma — então eu não vou me assustar se eu subir as escadas e ver uma porta ao fundo do corredor... — falou enquanto terminava de subir as escadas e caminhava pelo corredor do segundo andar.
            A imagem que acabara de ver era muito impressionante. Era tudo exatamente igual ao que ela sonhara! Como poderia ser? Era um sonho, não? Será que ela estivera realmente na casa através do sonho? Será que seu espírito estivera andando por ali enquanto ela dormia? Kimberly não acreditava muito nesse tipo de coisa, era mais realista, só acreditava nas coisas se visse com seus olhos, como São Tomé. Mas aquilo... aquilo não podia ser ilusão, era muito real, tão real como a agilidade com que passara pelos móveis da sala no escuro e encontrara o interruptor de luz.
            Permaneceu por alguns segundos parada no início do corredor. E agora? O que deveria fazer? Respirou fundo e começou a caminhar lentamente pelo corredor, já que estava ali, a única coisa que tinha para fazer mesmo era continuar. De repente, teve uma forte sensação de deja vú. Aquilo parecia muito com seu sonho, por um momento, chegou a pensar que estava sonhando, mas concluiu que não quando beliscou o braço e sentiu dor. Seguiu caminhando a passos lentos quando algo lhe chamou atenção, algo que ela não tinha visto no sonho. Na parede do meio do corredor havia um quadro e uma mesinha. Lentamente, ela parou de frente para o quadro e deixou a pasta que carregava em cima da mesinha, pois queria ver melhor de quem era a pintura. Quando viu a pintura, conseguiu conter um grito de susto. A pintura retratava perfeitamente o homem com quem ela sonhara! Era impressionante a semelhança! Era como se ela tivesse reproduzido em seus sonhos a imagem do quadro e não o contrário. Observando melhor, ela viu que havia algo escrito na parte inferior do quadro. Como o corredor estava escuro, Kimberly teve de forçar um pouco a visão para conseguir ler o que estava escrito. Com certa dificuldade conseguiu ler em voz baixa:
            — Ulrich von Goeth, primogênito da Família Real de Bonn — olhou mais uma vez para o quadro e constatou que era realmente o homem com quem sonhara, com todos os detalhes. Até a cor dos olhos verdes azulados eram exatamente iguais aos da pintura. — E como é lindo! — Falou para si mesma enquanto suspirava.
            Em seguida balançou a cabeça como se quisesse espantar algum pensamento ruim. Aquilo não estava certo. Como ela poderia ter sonhado com alguém, sem nunca tê-lo visto antes? Isso era loucura e Kimberly estava com medo de estar enlouquecendo.
            — Vou tirar essa história a limpo, — disse se afastando do quadro e começando a caminhar pelo corredor com passos rápidos — vamos à prova final, então.
            Acelerou o passo e caminhou até a porta que havia no final do corredor, sem hesitar, girou a maçaneta e abriu a porta. Em seguida, acendeu a luz e se espantou mais uma vez. O quarto era exatamente igual ao do sonho.
            Kimberly caminhou até o centro do quarto enquanto balançava a cabeça de um lado para outro como se não estivesse acreditando em nada do que acontecia, mas sabia que não poderia permanecer na incredulidade por muito tempo. Eram coincidências demais, provas demais que mostravam, diante dos olhos dela, que tudo o que ela estava vendo, na verdade, já existia e era muito real.
            Uma brisa suave passou por ela e o perfume tão conhecido chegou ao seu nariz. Seu coração bateu acelerado na expectativa de ver o estranho no instante seguinte, mas não viu nada. De repente, a luz do quarto se apagou sozinha e Kimberly entrou em alerta. Permaneceu parada, atenta a qualquer barulho ou movimento, mas não conseguiu captar nada. Quando ia suspirar aliviada, ouviu uma voz baixa e grave falar de algum ponto escuro do quarto:
            — Gute Abend, meine Prinzessin (boa noite minha princesa), eu disse que iríamos nos ver hoje, não disse?
            Kimberly não esperou para ver o dono da voz, se assustou de tal forma que deu meia volta e disparou correndo até chegar à sala, onde encontrou Rogério e Martin sentados em confortáveis poltronas conversando sobre o que aconteceria se Rogério comprasse a casa.
            Quando Kimberly surgiu diante deles com semblante assustado, Martin levantou-se rapidamente e veio em sua direção.
            — O que foi que aconteceu, Kim? — Perguntou enquanto a abraçava. — Parece que viu um fantasma...
            Ela levou algum tempo até se acalmar e poder falar.
            — Sou muito boba, me assustei com um vento de nada que balançou as cortinas e eu pensei que fosse algum ladrão.
            — Puxa, eu nunca vi você assim — falou Martin preocupado — quer uma água?
            Kimberly balançou a cabeça negativamente e respondeu:
            — Não, obrigada. Vocês se importam se eu esperar no carro?
            — Sem problemas. Rogério pode me emprestar a chave? — Indagou para o primo que observava a cena intrigado.
            Rogério tirou a chave do bolso e jogou para Martin que conduziu Kimberly até a porta de saída. Caminharam até o carro em silêncio e depois que ela se acomodou no banco de trás, ele disse:
            — Confesso que fiquei preocupado com você. Tem certeza que está tudo bem?
            Kimberly não respondeu. Simplesmente balançou a cabeça afirmando. De repente, ficara com muito frio.
            — Vou ligar o carro e deixar o ar-condicionado no quente, você está tão gelada quanto um sorvete.
            Após tomar as providências, Martin comentou antes de fechar a porta:
            — Se precisar de mim para alguma coisa, buzine. Nós não vamos nos demorar, só vamos ver o segundo e o terceiro andares. Logo voltaremos.
            Kimberly fez menção de segurar o braço de Martin e dizer: “Não vá, há um homem estranho lá em cima, provavelmente o dono da casa que morreu. Não vá, fique comigo!” Mas a única coisa que conseguiu dizer baixinho foi:
            — Tudo bem. Obrigada.


            Assim que ficou sozinha no interior do carro, Kimberly fechou os olhos com força. Não queria admitir, mas estava com medo. Não era normal o que estava acontecendo e ela tinha receio de ficar paranoica igual ao seu tio. Desde que se conhecia por gente, há vinte e cinco anos, ela nunca tivera nenhum tipo de experiência estranha ou paranormal e agora, a partir do momento em que se “encantara” com aquela casa, começara a ter sonhos estranhos e a prever as coisas. Com certeza, estava com medo.
            — Kim, abra a porta para nós — pediu Martin batendo, de leve, na janela do lado de fora do carro.
            Kimberly levou um susto tão grande que pôde jurar que pulou alguns centímetros do banco. Rapidamente, abriu a porta para que os dois entrassem e se encolheu quieta no canto direito do carro. Perdera-se em seus devaneios e não viu o tempo passar.
            — Está tudo bem, Kim? — Indagou Martin intrigado.
            — S-sim, cl-claro q-que está — respondeu gaguejando — só estou c-com frio, mas logo vai passar.
            Rogério traçava planos sobre o que faria caso a venda da casa desse certo. Martin concordava ou discordava conforme o assunto ia avançando e Kimberly não abriu a boca em nenhum momento. Estava atordoada com o que acontecera e com medo de estar enlouquecendo.
            “Por que será que ninguém falou do quadro do segundo andar?” — Questionava intrigada. — “Será que eles não viram ou não quiseram comentar?”

            Mas estas seriam perguntas que não teriam respostas porque ela não perguntaria.



Até a semana que vem. Espero que tenham gostado.
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quarta-feira, 14 de junho de 2017

O Ciclo das Sombras - Cap. 2/ pt. 1

Olá Queridos Leitores,

Segue o capítulo 2 do Ciclo das Sombras para vocês. Espero que gostem.



CAPÍTULO 2

Início, fim e recomeço


A semana na Arts Design iniciou calma e sem nenhuma surpresa. Kimberly procurou se dedicar com maior atenção às tarefas que tinha para fazer. Queria ocupar a mente e não lembrar nem do final de semana que tivera, nem do sonho doido com a casa. Se direcionasse o pensamento exclusivamente ao trabalho, com certeza, o tempo passaria mais rápido e ela não ficaria imaginando coisas. Porém, quando isto acontecia, ela se concentrava de tal forma que entrava em seu mundo e não falava com ninguém ao seu redor.
Notando a quietude da colega, Penélope não esperou mais e perguntou:
— O que há de errado com você, Kim?
Brian parou o que estava fazendo e olhou para Kimberly esperando a resposta. Também tinha notado a mudança dela, mas não queria ser indiscreto e perguntar.
— Kim? — Penélope tornou a perguntar.
— Hein? — Disse olhando para Penélope como se estivesse vendo-a pela primeira vez.
— Eu perguntei se está tudo bem com você. Observei que você está diferente. Aconteceu alguma coisa no final de semana que a deixou preocupada?
Ela olhou para o monte de papel espalhado sobre a mesa, olhou para a tela do computador, tornou a olhar para os papéis e respondeu, após um longo suspiro:
— Não consegui dormir direito neste final de semana, tive um sonho amalucado e depois fiquei me lembrando deles... Está bem difícil...
Penélope mordeu o lábio inferior, passou a mão pelo rosto e sugeriu com certo receio:
— Gostaria de passar algum tempo lá em casa? Quem sabe você não está precisando de uma mudança de ares? O que você está passando é muito para uma pessoa só.
Uma vez que Kimberly não respondeu, Penélope continuou como se estivesse se desculpando por ter falado algo que não devia.
— Se falei algo que a incomodou, peço desculpas. Queria ajudar de alguma forma, mas não sei por onde começar...
— Eu também gostaria de ajudar, se puder — acrescentou Brian meio sem jeito.
Ela olhou para os colegas e sorriu. Era bom saber que havia alguém que se preocupava com ela, de alguma forma.
— Obrigada pessoal, mas acho que, com relação a isso, não há muito que fazer. Penso que só o tempo pode curar esta ferida. — Fez uma pausa e disse. — Gente, eu é que peço desculpas se estiver sendo inconveniente, sei que alguém como eu acaba baixando o astral do ambiente...
O silêncio respondeu, mas Penélope não deixou que se estendesse muito.
— Kim, pare com isso. Nós sabemos que não é nada fácil o que você está passando, não seja dura demais consigo. Só quero que saiba que nós todos estaremos aqui para ajudá-la no que for preciso. Não fique acanhada em pedir auxílio a qualquer um de nós... somos seus amigos.
Kimberly tornou a sorrir e disse:
— Sei disso, agradeço todos os dias por ter amigos como vocês... — olhou para a porta da sala e falou mais alto — e agradeço a vocês que estão escutando atrás da porta também — terminou sorrindo mais.
Brian e Penélope olharam ao mesmo tempo para a porta e viram Cristiano, Martin e Evelin entrarem.
— Puxa, mas onde raios a educação de vocês foi parar? — Perguntou Brian divertido. — Por acaso, perderam?
— Nada disso, — respondeu Cristiano — nós estávamos a caminho daqui quando escutamos o que Penélope estava dizendo, então paramos para ouvir e aproveitar para dizer que as palavras dela também são as nossas. Pode contar com a gente para qualquer coisa, Kim.
Kimberly olhou para o semblante de cada um e sorriu. Era bom estar entre amigos. Ali, ela sabia que tinha com quem contar, embora não gostasse de ocupar os ouvidos das pessoas com seus problemas.
— Tá bom, tá bom, vocês venceram. Qualquer problema vou encher o saco de vocês e olha que eu sou chata, hein? — Terminou sorrindo.
Todos sorriram e, naquele momento, uma espécie de acordo entre os seis colegas estava formado. Acontecesse o que acontecesse, eles estariam juntos para ajudarem uns aos outros.


No final da tarde, Martin passou na sala de Kimberly e lhe perguntou:
— Olá dona ocupada, gostaria de sair para tomar um refresco hoje?
Kimberly sorriu para Martin e respondeu prontamente:
— Claro que sim, eu vou gostar muito.
Após despedirem-se dos colegas, os dois se dirigiram para a parada de ônibus. Enquanto esperavam, ela perguntou:
— Aonde vamos hoje?
— Estava pensando em ir naquele lugar que fomos com a galera na semana passada. Que acha?
— Bem legal. Gostei do lugar, o pessoal nos atende super bem, né?
“Ai, ai... a casa de novo e eu que achei que não ia mais pensar nela tão cedo...” — pensou Kimberly olhando na direção de um ônibus que se aproximava.
Aguardaram uns cinco minutos mais até que o ônibus que os levaria ao lugar desejado chegou. Embarcaram e se acomodaram no banco dos fundos. Após um tempo Martin, não se contendo, começou:
— Kimberly, sei que não é da minha conta, mas fiquei preocupado com o que aconteceu hoje lá na empresa. Você está precisando de alguma ajuda e não quer nos contar? Sabe que pode contar conosco, né?
Ela olhou pela janela. Avistou um casal de namorados passeando alegremente pela calçada e olhou para Martin. Ele esperava por alguma resposta e ela seria sincera com ele.
— Martin, sei que posso contar com vocês e sei disso muito bem depois do que aconteceu hoje, mas eu simplesmente não sei o que fazer. Tem sido mesmo muito complicado isso tudo. Sei que já passaram seis meses, mas mesmo assim não consegui seguir o curso normal da coisa. Parece que para onde quer que eu olhe, eu vou vê-los sorrindo e conversando comigo. É como se eles estivessem sempre comigo. É muito estranho... — disse olhando para as mãos.
— Não é nada de estranho não — afirmou ele. — Imagino que seja assim mesmo, ainda mais se você era apegada a eles e tinha muita afinidade. — Fez uma breve pausa e continuou. — O que você está fazendo é algo que eu não sei se conseguiria fazer se tivesse acontecido comigo. Você é muito forte Kim. Não posso dizer que isso vai passar, porque sei que não vai... Você sempre se lembrará deles, não há como esquecer. Por isso, não seja tão dura consigo mesmo. Dê tempo ao tempo e seja menos severa. Vai ver que, aos poucos, você vai melhorar.
Kimberly não resistiu e deitou a cabeça no ombro dele. Ele tinha o poder de fazê-la sentir-se melhor. Ficaram assim por mais algum tempo até que tiveram de levantar para descer.
Caminharam em silêncio até o bar. Escolheram uma mesa isolada das demais e que, por “coincidência”, ficava de frente para a casa. Após terem se acomodado, Martin fez o pedido à garçonete e, assim que ela se afastou, ele olhou nos olhos castanhos de Kimberly e disse sorrindo:
— Sabe, fico feliz por estarmos saindo mais seguido juntos.
Ela balançou a cabeça afirmando e respondeu:
— Para ser bem sincera, eu também estou feliz, mas peço... — fez uma pausa, escolhendo as palavras, pois não queria de forma alguma magoá-lo — vamos com calma. Eu sempre fui muito clara com relação a isso, não quero dar uma ideia errada...
Martin segurou as mãos dela entre as suas e disse calmamente:
— Não esquenta Kim, sei muito bem o que você me disse. Não precisa se preocupar, porque eu não vou passar o sinal vermelho, só se você pedir. E além do mais, só tendo a sua presença, mesmo como amiga, já me deixa muito contente.
Kimberly dirigiu um largo sorriso e respirou aliviada. Era bom saber que podia se sentir segura com Martin. Sabia que ele falava a verdade e que não iria fazer nada que ela não quisesse.
Estava começando a relaxar quando viu uma luz se acender na casa a sua frente. Não escondeu a curiosidade e virou rapidamente o rosto em sua direção.
— O que foi Kim? — Ele questionou curioso, olhando na mesma direção.
Desta vez, ela não se preocupou em disfarçar a curiosidade sobre a casa e disse:
— Aquela casa... é tão esquisita. Ela chama a minha atenção como nenhuma outra. Está para vender, logo não poderia ter ninguém morando nela, como a luz se acendeu?
Martin analisou a casa e respondeu:
— Ora, provavelmente os donos devem ter entrado para dar uma olhada ou para arrumar alguma coisa. Isso é normal. — Fez uma breve pausa e perguntou. — Como você sabe que a casa está abandonada?
Kimberly olhou para Martin com os olhos arregalados. Tinha ido longe demais na história da casa, mas... pensando bem, que mal havia em falar para ele o que é que realmente tinha acontecido? Após um breve suspiro, começou a contar.
— No sábado passado, depois que eu voltei da visita ao meu tio, resolvi descer na parada perto da casa e caminhei até lá para ver o que é que havia que me chamava tanto a atenção.
Martin permanecia em silêncio ouvindo as palavras dela. Por um momento, Kimberly achou que ele estivesse esperando uma brecha para caçoar dela por ter tido uma atitude tão absurda, mas não foi isso que viu em seus olhos. Ele a ouvia com atenção e interesse.
— Pois então, — continuou — caminhei até o portão de ferro da casa. Olhei por tudo e percebi que a casa estava abandonada. O jardim está muito malcuidado, a estradinha que deveria existir ali nem dá para ver direito de tanto capim que tem. Eu ia abrir o portão para olhar mais, mas com aquele mato todo desisti, vai que aparece um bicho esquisito por ali.
Com o comentário de Kimberly, Martin não conteve uma gargalhada, fazendo com que outras pessoas se virassem para ver o que é que estava acontecendo.
— Continue, é que ficou engraçada a forma como você disse isso. Por um momento, imaginei um bicho-papão saindo do mato — respondeu sorrindo.
Kimberly riu junto com ele. A imagem de um monstro saindo por entre o capim, naquele contexto ficou mesmo engraçado.
— É... — disse sorrindo — agora é engraçado imaginar isso, mas no dia que eu estava ali, não achei graça nenhuma. A sensação que eu tive foi de que havia de fato alguém ali, me observando.
Ele ergueu uma sobrancelha e a ouviu sem comentar mais nada.
— Eu me virei para ir embora, pois estava mesmo ficando com medo, então eu senti um perfume... — parou a narração lembrando o aroma que sentira. — Um perfume doce amadeirado... um perfume importado, tão bom... Mas se não tinha ninguém ali por perto, como eu poderia ter sentido esse aroma?
Martin se ajeitou melhor na cadeira, colocou os cotovelos sobre a mesa, entrelaçou as mãos e disse enquanto olhava na direção da cozinha do bar:
— Puxa, a demora está tão grande que, quando a gente resolver ir embora, vão trazer o nosso pedido... — olhou para Kimberly e continuou. — Mas isso pode acontecer. Acontece frequentemente comigo. Às vezes, do nada, eu sinto um perfume muito bom, mas não tem ninguém comigo.
Ela baixou os olhos para a mesa, ponderou o que ele disse e respondeu:
— É, provavelmente, você tem razão, não há nada para temer... vai ver foi uma brisa que trouxe o perfume e eu fiquei imaginando coisas... mas a sensação de que tinha alguém me espiando foi forte demais para ser ignorada. Até a cortina da janela mexeu e não tinha vento naquela hora.
— Bem... aí fica complicado, mas em princípio não é nada alarmante — disse calmamente.
Kimberly olhou novamente para a casa e para a janela cuja luz estava acesa. “O que é que estava acontecendo?” — Pensou intrigada.
— Adivinha? — Perguntou Martin de repente, tirando Kimberly de seus devaneios. — Poderemos tirar essa dúvida em seguida.
— Dúvida? — Perguntou sem entender nada. — Que dúvida?
Ele ia responder, mas esperou, pois a garçonete havia aparecido para trazer o pedido deles.
— Já não era sem tempo — ele falou assim que ela se afastou.
Espetou algumas batatas-fritas e continuou:
— Voltando ao assunto... eu dizia que podemos tirar a sua dúvida com relação à casa, se há ou não alguém morando nela. Meu primo está para se mudar e quer uma casa. Posso falar dela — disse olhando para a casa — se ele se interessar, poderemos fazer a visita juntos, que acha?
Kimberly olhou mais uma vez para a casa. A luz ainda estava acesa.
Abriu um largo sorriso e disse:
— Se ele não se importar, eu iria adorar acompanhar vocês.
Passaram as horas seguintes conversando sobre banalidades e assuntos da empresa. Quando Kimberly olhou para o relógio pela primeira vez desde que chegaram, levou um susto, pois o relógio marcava dez para a meia noite.
— Martin, — exclamou — você viu que horas são?
No mesmo momento Martin olhou para o seu relógio e disse enquanto erguia as sobrancelhas, surpreso:
— Credo! Não vi o tempo passar. Nós ficamos aqui de papo e já está tarde demais! E amanhã é a recém terça-feira. Puxa! Desse jeito você não vai mais querer sair comigo! — Falava enquanto pegava o casaco e o vestia.
— Também não é assim — disse Kimberly também se arrumando para sair.
Martin pagou a conta e caminharam a passos rápidos para a parada de ônibus.
Como já era tarde, o último ônibus demorou a chegar. Kimberly achou que Martin ia seguir o caminho quando ela se levantou para descer, mas se enganou quando percebeu que ele iria descer junto com ela.
— Martin, está muito tarde, acho melhor não descer comigo — disse enquanto se encaminhava para a porta de saída do ônibus.
— Não mesmo, — falou seguindo-a — vou com você. É minha responsabilidade saber que você está sã e salva em casa. Ficaria com grande remorso se eu seguisse o meu caminho e acontecesse alguma coisa com você, ainda mais, porque fui eu quem a convidou para sair.
Ela ficou quieta, não havia argumentos depois do que ele disse.
Assim que chegaram ao portão do prédio onde Kimberly morava, Martin se despediu dela com um beijo como da outra vez em que saíram. Ela se odiou por ter retribuído, mas embora não quisesse namorar com ele, não achava que estava fazendo algo fora da lei apenas por beijá-lo. De qualquer forma, ela achou melhor avisar:
— Martin, não se esqueça do que...
— Eu sei, — disse interrompendo-a enquanto fazia um gesto com a mão para fazê-la silenciar — já lhe disse que estou muito ciente da situação. Não se preocupe.
O coração dela batia forte, a presença de Martin fazia com que ela ficasse sempre alerta. Estava sendo cautelosa ao máximo, porque não queria, de forma alguma, magoar alguém tão amigo e gentil quanto ele. Depois que ele se afastou para ir embora, ela pensou enquanto colocava a chave no portão e o abria:
“Que Deus o proteja e que você chegue tranquilo em sua casa.”


O dia seguinte foi muito corrido. Kimberly atendeu dez novos clientes e estava muito envolvida com um projeto importante de um encarte de vendas de uma loja fina e muito conceituada que estava inaugurando uma filial no novo shopping da cidade.
— Boas notícias para você — falou Martin atrás dela.
Kimberly estava tão concentrada que não o viu entrar na sala e muito menos se aproximar dela. Deu um salto da cadeira, derrubando alguns papéis.
— Desculpe — apressou-se em dizer enquanto erguia os papéis do chão — achei que você tivesse me visto.
Com a mão no peito, ela respondeu:
— Estava absorta no encarte da loja do shopping que nem vi você chegar — falou tentando normalizar a respiração.
Martin aguardou alguns segundos até que Kimberly tivesse se recuperado do susto que levara. Enquanto ela organizava os papéis que tinha deixado cair, ele conversava com Brian sobre o jogo de futebol que iria passar na televisão na quarta-feira. Depois que Kimberly guardou seu material de trabalho foi se juntar a eles, apoiando-se na mesa de Brian.
— Não sei não, mas acho que amanhã vocês vão perder — dizia Brian animado.
— Nós ganharemos com certeza, mesmo que o time que for jogar amanhã seja só de reservas.
Brian fez uma careta sobre o comentário e disse mais alguma coisa que passou despercebida por Kimberly, pois ela tinha se afastado da mesa e se aproximava de Penélope, que estava se arrumando para ir embora.
— Esses dois não têm mais nada para conversar? Só sabem falar de futebol — comentou.
Penélope ergueu os olhos e respondeu:
— Imagino que homem que não fale sobre futebol ou é de outro planeta ou é florzinha — e sorriu com a própria piada. Pegou a bolsa e disse. — Boa noite pessoal. Vou embora, porque amanhã tem um monte de coisas para fazer e eu quero dormir cedo hoje. Até amanhã.
— Até amanhã — responderam os três em uníssono.
Assim que Penélope saiu da sala, Brian também se despediu e saiu logo em seguida, deixando Martin e Kimberly sozinhos.
Enquanto esperava Kimberly pegar a bolsa, ele disse:
— Lembra a história da casa? Pois é, falei com meu primo e ele adorou a ideia. Gostou mais ainda quando soube que fica perto da empresa em que trabalho. Assim, se a casa estiver em perfeitas condições, ele vai querer se mudar.
Kimberly sorriu com a possibilidade de ver, finalmente, a tão desejada moradia.
— Quando é que ele vai fazer a visita? — Questionou enquanto pegava a pasta contendo o projeto da loja.
— Ele queria vir hoje, mas tinha um compromisso e resolveu deixar para amanhã. Nós faremos o seguinte: ele vai vir aqui depois do expediente e nós vamos à imobiliária pegar a chave para ver a casa — olhou para ela por um instante e perguntou. — Você não tem nenhum plano para amanhã, tem?
Ela sorriu de novo e respondeu:
— Plano? É mais certo o seu time ganhar amanhã do que eu ter algum plano.
Por aquela Martin não esperava e sorriu animado com o comentário dela.


Kimberly chegou em seu apartamento tremendo de frio. Não imaginou que a temperatura iria baixar tão bruscamente, embora o Outono já tivesse iniciado. Largou suas coisas na cadeira que havia na entrada do apartamento e dirigiu-se rapidamente, com os braços em torno de si mesma, para o quarto. Iria tomar um banho bem quente para ver se conseguia dissipar o frio.
Enquanto tomava banho, Kimberly sorria alegre, pois finalmente iria conhecer a tão famosa casa. Era bom demais que os fatos coincidissem de tal forma fazendo com que, o que ela mais desejara, acontecesse.
Após o banho, foi até a cozinha preparar um lanche. Depois de comer, organizou tudo e foi-se deitar. Tinha muito trabalho amanhã e uma visita muito importante para fazer.
Enquanto esperava o sono chegar, pensava na empresa em que trabalhava. Vilton com certeza era um bom chefe. Ele acreditava no potencial dela, caso contrário, não delegaria a ela uma tarefa tão importante quanto o projeto da loja do shopping.
“Fico orgulhosa com isso.” — Refletia animada. —“É bom mesmo quando a gente é reconhecida por todo o esforço que dedicamos à determinada tarefa. Que bom que o chefe me reconheceu... vou me dedicar mais ainda. Talvez até o meu cargo na empresa suba um pouquinho” — terminou o pensamento sorrindo satisfeita.
Kimberly levou algum tempo ainda para conseguir dormir e quando o fez, novamente sonhou.


Ela estava dentro da casa. Estava tudo escuro e ela tinha que caminhar devagar se não quisesse bater nos móveis a sua frente. Não havia um barulho que acusasse a presença de outra pessoa ali, a não ser ela.
“O que é que eu estou fazendo aqui?” — Pensava enquanto caminhava devagar para não bater em nada. — “Eu ainda não fui fazer a visita com Martin, como posso estar aqui, então?”
Continuou caminhando. O escuro atrapalhava muito sua expedição, mas Kimberly não iria desistir tão fácil, já que conseguira entrar na casa sem esforço algum. Às vezes, era bom ter sonhos desse tipo, pois não era preciso se preocupar em como as coisas aconteciam, simplesmente se devia deixar o curso dos acontecimentos seguir. Passou pela sala e encaminhou-se até as escadas. Começou a subir degrau por degrau bem devagar para evitar errar o pé e cair um tombo feio. Quando chegou ao segundo andar, continuou caminhando devagar pelo corredor. Parou por um momento quando viu que havia uma claridade no aposento ao fundo do corredor, que ela julgou ser um quarto.
Respirou fundo e continuou caminhando até chegar perto da porta. Colocou a mão devagar sobre a maçaneta e a girou lentamente, com medo de que o possível barulho que fizesse pudesse despertar alguma coisa na casa. Quando abriu a porta, percebeu que não era a luz de uma lâmpada que iluminava o ambiente e sim a luz de uma vela.
“Acho que não pagaram a luz nesse mês...” — pensou enquanto entrava no quarto.
Era um quarto muito bonito e decorado com elegância. Pela disposição dos móveis, ela deduziu que o quarto pertencia a um homem, provavelmente, o dono da casa. Encaminhou-se ao centro do espaçoso aposento até ficar de frente para a cama de casal. Olhou em volta e não viu nada que pudesse chamar sua atenção, o quarto estava vazio.
Antes que pudesse se virar para ir embora, sentiu aquele aroma conhecido, o perfume doce amadeirado que a deixava tonta. Ela não estava mais sozinha.
Hallo, meine Liebe (olá, minha querida) — sussurrou a voz, em alemão, atrás dela. — Estava esperando por você — disse em português, mas com um sotaque muito forte.
Desta vez, ele não a segurou pela cintura. Foi ela quem se virou lentamente para ver o que estava acontecendo. Quando deu o giro completo, Kimberly se deparou com o mesmo homem do sonho anterior. Naquele momento, não conseguiu fazer mais nada, simplesmente parou. A única coisa que conseguia fazer era olhar para os olhos verdes azulados dele e para a palidez de sua pele.
“Nossa...” — pensou enquanto suspirava — “ele parece com os deuses gregos esculpidos em mármore... como é lindo!”
— Esperei por muito tempo... e finalmente você chegou — ele falou com sotaque alemão.
Kimberly não percebeu, mas enquanto falava, ele ia empurrando-a lentamente em direção à cama.
— Não consigo entender... — foi a única coisa que ela conseguiu dizer antes de recuar mais alguns passos e acabar se deitando na cama.
Ele sorriu de modo enigmático e disse enquanto deitava-se sobre ela:
— Não consegue entender? Nein (não)? Tenho observado você todos os dias quando passa em frente a minha casa. Observei cada movimento seu quando você tentou entrar no pátio — agora o sotaque dele estava tão forte que faltava pouco para começar a falar em alemão.
Kimberly sacudia a cabeça tentando não ouvir o que ele dizia. Era só um sonho, nada demais e, no entanto, estava se tornando muito real... real até demais.
Ela tinha vontade de se afastar dele e ir embora, estava muito perigoso ficar ali com ele, um estranho. Tentou se erguer para ir embora, mas não conseguiu, acabou tonteando quando aspirou novamente o perfume dele.
Ich weiβ... Ich weiβ... (eu sei... eu sei...) que você tem observado minha casa há muito tempo e que tem sobre ela um fascínio inexplicável.
Kimberly olhou para ele admirada com a informação. Aquilo era um sonho ou o quê? Estava muito real para ser apenas um sonho. Não conseguiu fazer nem dizer mais nada, estava sem ação.
Ele sorriu carinhosamente para Kimberly e disse enquanto segurava uma mecha dos cabelos dela:
— Sei que parece absurdo, mas não é.... Das ist kein Traum, es ist wahr (isto não é um sonho, é verdade.). E quando você acordar, vai se lembrar de tudo isso claramente...
Ele levou a mecha de cabelos dela até o nariz para que pudesse aspirar o seu perfume, depois soltou a mecha e passou a mão lentamente pelo rosto dela. Ao sentir o toque da mão dele em seu rosto, Kimberly se encolheu instintivamente, pois a mão dele era fria como gelo e ela sentiu frio. Em seguida, ele virou delicadamente a cabeça dela para o lado esquerdo e disse enquanto aproximava o rosto do pescoço dela:
— Você tem um perfume maravilhoso... e o sangue puro... intocado. É inebriante.
Kimberly não conseguiu normalizar a respiração, que estava acelerada. Ele a estava deixando sem condições de raciocinar. Tentou afastá-lo, mas não conseguiu, ele parecia ser feito de pedra e era muito forte.
Ele aproximou os lábios do pescoço dela e o beijou, fazendo com que Kimberly prendesse a respiração. Em seguida, se afastou para olhar para os olhos castanhos dela.
— Ficarei esperando por você... Bis morgen meine Prinzessin (até amanhã, minha princesa) — disse e a beijou nos lábios.
Kimberly não conseguiu impedir e nem tentou. O beijo dele era especial, suave e fazia com que ela perdesse completamente a noção de tempo e espaço. Ele a estreitou mais em seus braços fortes fazendo com que ela não conseguisse respirar, quando Kimberly percebeu que iria acabar desmaiando por falta de ar, abriu os olhos de repente e percebeu que não estava mais na casa e sim em seu quarto. Permaneceu por um tempo olhando para o teto, tentando ordenar os pensamentos. Quando se sentiu mais calma, sentou-se na cama, dobrou as pernas e abraçou-as, apoiando a cabeça nos joelhos.
— Outro sonho maluco... — murmurou pra si mesma — mas foi tão real... ainda consigo sentir o perfume... quem é ele? Quem é esse homem que aparece em meus sonhos e me tira do sério? — Questionou novamente enquanto voltava a deitar e tentava dormir de novo.


Até a próxima semana,