sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Não deu desta vez...


Olá queridos Leitores

Depois de algum tempo afastada do blog, retorno para comunicar uma notícia triste: meus textos não foram selecionados no Concurso Assombros Juvenis n. 2. Foram 40 textos, sendo que dois eram meus e a comissão escolheu somente 10.
Certo, não podemos ganhar sempre, mas as pessoas que leram os textos, de forma unânime, concordaram que eles mereciam ser selecionado (quer dizer um deles, pois não poderia haver mais de um texto do mesmo autor).
Sendo assim, já que eu não ganhei (infelizmente e injustamente), vou postar os textos aqui para vocês lerem. De tudo isso, só peço que isso não se assemelhe aos concursos públicos.
 
Este aqui é o regulamento do concurso:
 
REGULAMENTO
2º CONCURSO LITERÁRIO DE CONTOS
ASSOMBROS JUVENIS
58ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

 

1. A Câmara Rio-Grandense do Livro - CRL, a Reinações:Confraria da Leitura de textos de Literatura Infantojuvenil e a Companhia Rio-Riograndense de Artes Gráficas - Corag promovem o 1º Concurso Literário Assombros Juvenis, que visa despertar talentos literários, promover a Literatura Infantojuvenil e homenagear a literatura de terror destinada a adolescentes, que tanto apelo tem no coração dos novos leitores.

2. Estão habilitadas a participar do concurso pessoas residentes no Rio Grande do Sul, com idade acima de 18 anos.
Obs.: É vedada a participação de membros da Comissão que organiza e julga o concurso, assim como de funcionários da CRL, bem como de seus familiares até segundo grau.

 
3. Aparticipação no concurso, através do envio de textos, implica a concordância com todas as cláusulas deste regulamento.

 
4. Os textos deverão ser rigorosamente inéditos em veículos impressos.

 
5. Atemática é o sobrenatural, sendo que o conto deve ter como público-alvo os adolescentes. Assim, o protagonista deverá ser um jovem ou uma jovem. Os seres do Além que fizerem parte dos contos podem ser seres do imaginário popular, retomados, ou seres criados pelo autor.

 
6. Cada participante poderá inscrever-se através da entrega de texto do gênero conto, devendo este ter, no máximo, cinco páginas, digitadas em espaço 1,5, utilizando fonte Arial 12, em folha A4, com margens de 2 cm.

6.1. Textos que não se encaixarem na temática ou no gênero deste concurso serão invalidados.
6.2. Cada autor poderá inscrever quantos contos desejar, desde que obedeçam ao que rege este regulamento.

 
7. É obrigatório o uso de pseudônimo, que deverá ser composto de no mínimo dois nomes e colocado no alto da primeira página de cada um dos textos inscritos. Caso o autor participe do concurso com mais de um texto, poderá entregá-los no mesmo envelope, desde que obedeça ao que rege o item 8.

 
8. Acompanhando os textos (a serem entregues impressos em papel A4 ou ofício, em três cópias, e em CD-R, em um envelope devidamente identificado com o pseudônimo) deverá constar, em um envelope menor, lacrado, identificado com o pseudônimo, uma folha com os seguintes dados:

 
a) Nome do concurso
b) Pseudônimo composto (mais de um nome)
c) Nome completo
d) Endereço completo
e) Telefones
f) E-mail
g) Data de nascimento
10. O prazo para as inscrições termina, impreterivelmente, em 15 de junho de 2012, até às 18h. Os envelopes com os textos concorrentes devem ser entregues na Câmara Rio-Grandense do Livro (Praça Osvaldo Cruz, 15 Conj. 1708 / 1709, CEP 90030-160, em Porto Alegre/RS) ou enviados pelo Correio, aos cuidados de Rafael Cardozo. Neste último caso, a data de inscrição será a da postagem, que, se for posterior a do prazo máximo para a inscrição, não será aceita.

 
11. O julgamento dos textos será realizado por uma comissão de três profissionais, de diferentes áreas da literatura, indicada pelos organizadores do concurso.

 
12. Os textos selecionados em número não superior a 10 poderão ser publicados em antologia editada pelos organizadores, sem fins lucrativos, razão pela qual os organizadores exoneram-se do pagamento de direitos autorais ou de qualquer outra forma de remuneração aos autores, além da entrega gratuita de dez exemplares da antologia. A antologia terá lançamento e sessão de autógrafos na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre em data a ser marcada.

 
13. Não poderá figurar no livro mais do que um texto de cada autor.

 
14. Da premiação:

14.1. Serão outorgados certificados a todos os selecionados, e estes poderão ter seus textos publicados na antologia do 2ºConcurso Literário Assombros Juvenis, não havendo qualquer ônus aos escritores selecionados.
15. O resultado do concurso será divulgado no site da CRL (www.camaradolivro.com.br) e no blog da REINAÇÕES (confrariareinacoes.blogspot.com) até o mês de outubro de 2012.

16. Não haverá, em nenhuma hipótese, devolução dos textos concorrentes.
17. As decisões da comissão julgadora são irrecorríveis.

 
18. Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos em conjunto pelo coordenador do concurso, jurados e representantes das entidades organizadoras.

 
19. Mais informações podem ser obtidas na CRL pelo fone (51) 3286.4517, com Rafael Cardozo, através do blog da REINAÇÕES (confrariareinacoes.blogspot.com) ou, ainda, através do e-mail caioriter@uol.com.br, com Caio Riter, organizador do concurso.
 
Aqui está a lista dos textos participantes:

terça-feira, 24 de julho de 2012


Assombros Juvenis II: inscrições homologadas

TEXTOS INSCRITOS PARA O 2º CONCURSO ASSOMBROS JUVENIS
INSCRIÇÕES HOMOLOGADAS / PSEUDÔNIMO
1.A bela da noite / Avelino Fantomas
2.A dama do espelho / Maria da Graça
3.A história dos vampiros / Leonardo Luis Ás
4.A lagoa maldita / Girassol Del Ruiz
5.Alienígena / Guri Medonho
6.A maldição da sereia / Sabrina Feix
7.A menina que gritou lobo / Denis Romerique
8.A pluma branca / Marques Rodrigues
9.Blues / Misty Morgan
10.Boneco / Vitor Finger
11.Bulita / Santi Rodrigues
12.Charlie / Ana Ene
13.Casamento entre Conde Drácula e Don Juan... / Correspondente de guerra
14.Daqueles que se foram / Juvêncio Cronópio
15.Dora e o gato / Lilith Black
16.Estrada para o terror / Arnaldo Raimundo
17.Estranhos no milharal / Rosa Blanca
18.Jogos proibidos / Nalla Raji
19.Lanterna / Lênoto Gasp
20.Mistérios / Cris Andersen
21.No escuro / Leonardo Luis Ás
22.Noite de lua cheia / Ninfa Ninféia
23.Noite na mata 1.0 / Ademar José Marins
24.O anfitrião / Betina Alves
25.O bracelete / Morghana Riona
26.O buraco / Loren Ipsum
27.O canibal / Urubu Kaapor
28.O esqueleto / Correspondente de guerra
29.O homem do sonho / Renata Carmenére
30.O livro dos desejos / Sabrina Stoba
31.O lobisomem / Guri Medonho
32.O poço milagroso / Renata Carmenére
33.O torce-braço / Cuca do sítio
34.PicSu / Ribalta Sustenido
35.Quem tem medo de corvo? / Henrique Troá
36.Sopros do mal / Fênix dos Pampas
37.Terror na internet / Guri Medonho
38.Trevas: diário de uma vampira / Morghana Riona
39.Troca de Olhares / Van der Till
40.Sombra / Van der Till
 
 
            E agora, seguem os meus textos.
            Se puderem, deixem suas opiniões. De qualquer forma, acredito que um dos meus textos deveria estar entre os vencedores.
 
O Bracelete

Lucinda tinha dezessete anos, era caloura do Curso de Biblioteconomia e estagiava na biblioteca pública da cidade. Logo se tornou amiga de Ariadne, que também estagiava na biblioteca. Nas horas vagas, as duas planejavam abrir uma empresa de consultoria depois que se formassem. A rotina das jovens era bem tranquila, até o Bracelete aparecer.
Na segunda-feira, Lucinda chegou animada à biblioteca. Logo que viu Ariadne, mostrou o presente que ganhara do namorado. Era um bracelete de prata muito lindo que imitava uma serpente e bem no meio dele, havia uma pedra roxa brilhante.
— Logo que vi o bracelete, decidi que tinha de ser meu! — Disse em tom possessivo, admirando o bracelete e assustando Ariadne, que nunca vira a amiga falar daquele jeito.
Lucinda não parava de olhar o bracelete em seu pulso. Ele era tão perfeito e exótico que a superfície parecia estar sempre mudando, tal qual uma serpente muda de pele. Queria ir embora para admirar melhor o bracelete.
Chegando em casa, Lucinda foi direto para o quarto, onde se deitou na cama para ver o bracelete por todos os ângulos possíveis. Como estava cansada, dormiu. Dormiu e sonhou.
Sonhou que estava na biblioteca, no escuro. Mais a frente, um facho de luz roxa apontava para alguma coisa. Caminhou até o balcão de atendimento espantando-se quando viu que o facho de luz vinha do bracelete que ganhara. Seguiu o olhar na direção da luz que indicava o jardim de inverno. “Como é que ele veio parar aqui?” — Pensou pegando o bracelete e o colocando no pulso. Sem resposta, caminhou até a porta de saída. Quando ia abrir a porta, a pedra roxa do bracelete brilhou intensamente e uma força que não era a dela puxou seu braço na direção do jardim. Ficou apavorada. Alguma coisa segurava seu pulso com força, mas não havia nada ali! Lucinda tentou se soltar, mas não conseguiu e seguiu de arrasto até o centro do jardim. Foi obrigada a se curvar e, quando estava prestes a tocar o chão, da terra surgiu algo estranho e em decomposição, parecendo ser a mão de um cadáver que agarrou firme seu braço. Quanto mais força fazia para se soltar e recuar, mais a mão a apertava. No esforço de fugir daquela coisa, Lucinda havia desenterrado a mão e um braço em mesmo estado de decomposição.
— Me ajude — pediu uma voz suplicante. — Por favor... liberte-me...
Então, Lucinda viu a terra se mexendo e deduziu que o resto do corpo logo apareceria. Juntou suas forças e gritou apavorada:
— Não! — Acordou tremendo de medo, o pesadelo fora real demais.
No dia seguinte, Lucinda tentou esquecer o pesadelo horrível, mas sempre que se distraía, a imagem daquela coisa vinha à mente e ela não conseguia mais se concentrar. Ao término do expediente, Lucinda foi para casa e, quando a noite chegou, fez de tudo para não dormir, pois estava com medo. Porém, adormeceu sentada no sofá quando assistia à televisão e, novamente sonhou.
Estava de volta à biblioteca, seguindo os mesmos passos do pesadelo anterior. Quando o resto do corpo saiu da terra, Lucinda se desvencilhou da coisa que a agarrava e se escondeu atrás do balcão de atendimento. O silêncio reinou, mas foi quebrado por uma voz triste e lamuriosa que dizia:
Ajuda... peço ajuda para me libertar... por favor...
Encolhida atrás do balcão, Lucinda sentiu que tinha de ver o que era aquilo que suplicava. Levantou devagar e, ao ver o que estava a sua frente, colocou as mãos sobre a boca para abafar um grito de horror. Havia um homem no jardim. A visão era horrível, pois ele estava queimado dos pés a cabeça e em algumas partes onde não havia mais carne, Lucinda podia ver os ossos dele.
Me ajude — pediu estendendo os braços para a jovem. — Preciso da verdade... para ser livre e descansar em paz...
Lucinda estava aterrorizada, mas ainda assim, perguntou:
Que verdade é essa? Se libertar do quê?
O meu tesouro — respondeu — vai me libertar...
E onde ele está? — Indagou tentando não olhar para a criatura.
Está em baixo do que sempre vem e sempre vai, sem parar — respondeu sumindo enquanto Lucinda mais uma vez acordava assustada.
No dia seguinte, ligou para Ariadne e pediu que ela faltasse às aulas, pois precisava contar-lhe algo terrível. Encontraram-se no parque próximo à biblioteca e, logo que a amiga chegou, Lucila contou tudo o que aconteceu. Quando o relato terminou, Ariadne disse em tom sério:
                 Então a lenda do Diretor é verdade! Nós temos de ajudá-lo!
Lucinda não entendeu e Ariadne explicou. Rezava a lenda que em 1906, Victor, fundador e primeiro diretor da biblioteca, foi assassinado por Brian, um político que não admitia que as pessoas tivessem acesso à informação, porque queria dominá-las através da ignorância. Além disso, Brian era apaixonado pela noiva do diretor e, como não podia nem destruir a biblioteca, nem ficar com Elisabeth, decidiu que eliminaria a pessoa que as possuía. Sabendo que Victor estudava assuntos esotéricos com os amigos, Brian armou uma cilada para que o outro fosse acusado de bruxaria. O plano deu certo, Victor foi queimado vivo e, a noiva suicidou-se quando soube do ocorrido. Acredita-se que Victor deixou um diário relatando tudo: o início da construção da biblioteca, as sabotagens de Brian até os últimos momentos em que foi acusado de bruxaria. Lucinda ficou impressionada e deduziu que o homem do pesadelo só podia ser Victor.
Sendo assim, as duas criaram um plano para encontrar o tesouro e libertar Victor. Mas para isso, teriam de passar a noite na biblioteca. Quando o expediente encerrou, as jovens despediram-se da bibliotecária e ficaram na calçada fingindo conversar algo importante. Logo que a bibliotecária dobrou a esquina, as duas correram para os fundos da biblioteca e, com a chave que Lucinda pegara no dia anterior, sem ninguém perceber, entraram. A biblioteca estava às escuras como nos pesadelos e Lucinda, tremendo de medo, desejou que aquilo acabasse logo. Caminharam até o balcão de atendimento e seguiram para a sessão dos periódicos.
E agora? Como vamos achar o tesouro? — Indagou Ariadne preocupada.
Eu não sei, mas o bracelete deve saber — Lucinda ergueu o pulso na altura do rosto e pediu — mostre-me o tesouro!
Então a pedra roxa brilhou intensamente dirigindo seu brilho para um lugar específico no chão perto das estantes de periódicos.
Achamos o lugar! Vou pegar as ferramentas! — Gritou Ariadne correndo até uma sala e voltando em seguida com dois pés-de-cabra. Entregou um para a amiga e começaram a remover o piso com rapidez.
Enquanto retirava a madeira, Lucinda ouviu o som de pedras rolando sobre a terra e uma voz triste dizer: “Meu tesouro... minha liberdade...” Virou-se devagar e paralisou quando viu que o corpo dos pesadelos realmente existia. Ariadne estava sentada contra a parede atônita demais para dizer ou fazer alguma coisa. O corpo avançava lentamente para elas e então Lucinda gritou para a amiga:
Esqueça ele! Vamos terminar o que começamos!
Voltaram ao trabalho com rapidez, sem pensar no monstro que se aproximava. Ao retirar todo o piso, encontraram uma caixa pesada de madeira. Juntas, puseram a caixa sobre uma mesa e, com o auxílio dos pés-de-cabra, abriram-na com facilidade. Elas estavam tão preocupadas em recuperar o diário que não viram quando o monstro horrendo gradativamente voltava à forma humana e, quando Lucinda pegou o diário e se virou para o monstro, houve uma claridade tão grande na biblioteca que ela teve de fechar os olhos.
Lucinda, olha isso! — Gritou Ariadne assim que a claridade diminuiu.
Ao abrir os olhos, Lucinda ficou espantada. No lugar do monstro havia um homem bem vestido e muito elegante. Ele aproximou-se mais, mas as duas recuaram assustadas.
Por favor, não temam. Sou eu, Victor, o diretor da biblioteca — explicou com voz calma. — Agradeço a você, Lucinda por ter me libertado e encontrado o meu tesouro, nesse diário está registrada a história da biblioteca e todas as provas de que Brian foi o autor da minha morte. Enterrei o diário neste lugar, porque sabia que um dia alguém o encontraria. Entregue o diário à bibliotecária, que saberá o que fazer.
Houve outro clarão que iluminou a biblioteca e, ao abrir os olhos, Lucinda viu uma moça muito linda perto da porta de entrada.
Victor! — Ela chamou indo ao encontro do diretor.
Elisabeth! — Victor exclamou abraçando-a. –— Enfim nos reencontramos, nossa espera finalmente acabou!
A moça afastou-se de Victor e disse para Lucinda:
Muito obrigada por ter encontrado o meu bracelete e ter nos libertado. Victor me deu na época em que estudávamos ocultismo. É um bracelete mágico que tem o poder de encontrar o que se perdeu e achar o que mais se deseja. Fique com ele, como um presente meu de gratidão — disse sorrindo gentilmente.
Agradeço por nos trazer a paz — disse Victor sorrindo para Lucinda e Ariadne. — Entreguem o diário para a bibliotecária e serão recompensadas — abraçou Elisabeth e os dois desapareceram envoltos em uma brilhante luz azul. Finalmente a verdade foi revelada e tudo acabou bem.
No dia seguinte, Lucinda e Ariadne entregaram o diário e contaram o ocorrido à bibliotecária, que ficou radiante, pois procurava por ele há anos, através da divulgação de cartazes que ofereciam uma grande recompensa para quem encontrasse o Diário de Victor Stein.
E, como o diretor previu, as jovens ganharam ótima recompensa em dinheiro. Lucinda e Ariadne ficaram muito felizes e orgulhosas, pois além de desvendar a lenda da biblioteca, também ganharam a recompensa para poder abrir a empresa de consultoria que tanto almejavam quando estivessem formadas.
                             Michele Irigaray
 
 
 
Trevas: diário de uma vampira

Quando conheci Wagner, sabia que esse momento chegaria, porque em todos os meus dezesseis anos, era o que eu mais queria em minha vida. Mas agora que aconteceria, eu estava com medo, muito medo.
Wagner surgiu em um dos meus passeios noturnos pelo cemitério. Naquela ocasião, a turma que sempre me acompanhava, não estava comigo e eu fui passear sozinha mesmo assim. Estava sentada em um túmulo, que era o meu preferido, porque tinha a estátua grande de um anjo com as mãos estendidas para o chão, como se oferecesse ajuda àqueles que morreram. Observava a lua cheia, curtindo o silêncio e a leve brisa que soprava naquela agradável noite de primavera. De repente, percebi algo esquisito e, quando olhei para frente, vi um ser muito pálido, de cabelos negros e olhos verdes tão brilhantes que pareciam olhos de gato, imóvel olhando para mim. Se eu não conhecesse muito bem o cemitério, diria que era uma estátua. Olhei para ele por algum tempo e meu coração começou a bater acelerado no peito. Era um vampiro!
Os vampiros sempre me fascinaram desde criança e agora, na fase “complicada” da adolescência, enquanto as meninas falavam sobre namoro, garotos e festas (que era o padrão), eu ficava quieta na minha, imaginando como seria se eu tivesse um vampiro como namorado. Sinceramente, não sei por que sou assim, tão fascinada por essas criaturas, é como se uma parte de mim fosse um pouco vampira, mas sei que isso seria uma ideia estúpida e sem fundamento. Até Wagner aparecer.
Naquela noite, ele estava sobre o túmulo em frente ao meu, olhando para mim. Eu queria dizer alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada. Tudo o que eu sempre desejei estava bem na minha frente e eu parecia uma boba sem reação. Olhei para as minhas mãos tentando pensar no que fazer e quando ergui o olhar, levei um susto ao vê-lo apenas a alguns centímetros de mim.
— Chegou a hora — anunciou como se eu soubesse do que ele estava falando.
Eu só conseguia olhar para os olhos verdes dele, estava hipnotizada.
— Chegou a hora — ele repetiu e aproximou-se mais de mim, fazendo com que eu sentisse sua pele fria e sua respiração gelada em meu rosto.
— Hora do quê? — Indaguei tentando recuperar o fôlego.
— Hora de vir para o meu mundo — e sem que eu esperasse, me beijou.
Por alguns segundos, perdi a noção de tempo e espaço e quando ele se afastou de mim, disse:
— Por dezesseis anos acompanho a sua vida, porque você é especial.
Eu não estava entendendo nada do que ele dizia. Na verdade, tudo o que estava acontecendo não fazia sentido. Até o fato de ele estar ali parecia mentira, mas eu sabia que não, não depois do beijo que ele me deu.
— Especial? — Indaguei cruzando os braços.
Levantei e comecei a caminhar entre os túmulos para tentar ordenar o meu pensamento, mas paralisei quando o ouvi dizer:
— Sim, especial porque tem sangue vampiro correndo em suas veias.
— O quê? — Gritei incrédula, mas em seguida me arrependi pelo grito. De qualquer maneira, acho que os mortos não se importariam com o barulho.
— Você tem sangue vampiro correndo nas veias — ele repetiu sussurrando em meu ouvido.
Novamente me assustei. Era complicado se acostumar com os movimentos rápidos dele. Dei meia volta e fiquei esperando a explicação.
— Você não sabe de nada? — Indagou como se eu tivesse a obrigação de saber sobre o que ele estava falando.
Balancei a cabeça negando e então ele explicou:
— Sua mãe foi atacada por um vampiro quando estava grávida. E, não suportando a situação, cometeu suicídio logo que você nasceu. O vampiro que a atacou também matou o seu pai e é por isso que você mora com seus tios. Ninguém nunca lhe disse a verdade porque a única coisa que sabiam era que os seus pais foram assassinados. O ataque foi muito bem planejado pelo vampiro que matou os seus pais, para que não houvesse suspeitas sobre a nossa espécie.
Comecei a analisar minha vida e percebi que muita coisa fazia sentido. Minha preferência pela noite, minhas atitudes solitárias, meu gosto por passear em cemitérios e minha paixão desvairada por vampiros.
— É por isso que estou aqui — ele disse. — Porque há dezesseis anos, fui designado pelos Anciãos do nosso Conselho para cuidar de você e transformá-la quando chegasse a hora — enlaçou-me pela cintura e eu senti o frio de suas mãos sobre o tecido fino do meu vestido. — E, ao acompanhar o seu crescimento, acabei me apaixonando por você — finalizou apertando-me mais contra ele.
Foi assim que conheci minha verdadeira origem. Quem diria, hein? Eu que tanto amo vampiros, tinha o sangue deles em mim e não sabia. Mas e então? Por que eu estava com medo do que aconteceria naquela noite? Por que tinha vontade de desistir de tudo e sair correndo o mais rápido dali? Talvez fosse o instinto humano em mim que se recusava a morrer.
Senti um frio desagradável no estômago e meu coração acelerou.
— Por que o medo agora? — Perguntou apertando-me mais em seus braços fortes.
Não respondi, porque estava com falta de ar e na certa acabaria morrendo se ele continuasse a me apertar. Wagner deve ter percebido que estava me sufocando, porque abriu os braços deixando que eu recuperasse o ar. Aproveitei o momento e me afastei alguns passos dele. Wagner me olhou como se eu estivesse fazendo a coisa mais idiota do mundo e, traduzindo a minha impressão, disse:
— Você sabe que não vai adiantar fugir, não é?
Eu sabia, mas continuava a recuar. Sabia também que logo em seguida ele se transformaria e ficaria em seu estado natural, com os olhos negros como azeviche e os caninos afiadíssimos como lâminas de espadas.
Sei que agi daquela forma por instinto, porque não há chance alguma contra um vampiro, mas mesmo assim, me virei e comecei a correr o mais rápido que podia entre os túmulos, tentando me afastar dele. Triste ilusão a minha, pois em cada direção que eu ia, lá estava ele na minha frente, olhando-me com um certo sorriso sarcástico como se perguntasse: “Até quando vamos brincar de gato e rato?”
Confesso que tentei correr mais mesmo sabendo que não adiantaria nada, mas a renda da minha saia acabou prendendo no canto de um túmulo e eu perdi o equilíbrio. Foi neste descuido que Wagner me pegou no colo e me levou para um túmulo que parecia um altar, onde me deitou com cuidado.
Ficamos parados por um momento nos olhando. Apesar de Wagner estar transformado, ainda assim ele era lindo. Não tinha como não ceder aos caprichos de uma criatura como ele.
— Não há o que fazer Verônica. Quando existe um híbrido entre nós só existem dois caminhos: ou a morte, ou a transformação. E o nosso Conselho optou pela sua transformação. — Olhou para mim e os seus negros brilharam. Provavelmente, ele estava imaginando como seria o gosto do meu sangue. — E aqui estou eu, pronto para cumprir minha missão e fazer de você a minha companheira eterna.
        Ao dizer isso, segurou meu rosto com delicadeza e o virou para o lado esquerdo. E, sem que eu tivesse tempo para me preparar psicologicamente, cravou seus caninos em meu pescoço.
A dor foi terrível. Tive a sensação de que duas agulhas grossas e afiadas haviam sido cravadas em meu pescoço. Em seguida, senti um líquido espesso e muito, muito frio ser injetado espalhando-se rapidamente em minha circulação sanguínea. Meu corpo estava congelando e eu não podia fazer nada, pois estava fraca demais para tentar empurrá-lo para longe de mim. Além disso, eu ficava mais debilitada a cada vez que eu sentia meu sangue ser drenado por ele. A sensação de tontura, fraqueza, falta de ar e a dor de cabeça aumentavam vertiginosamente e eu desejei com as poucas forças que ainda me restavam que aquilo acabasse logo.
Quando pensei que iria morrer, ele afastou os caninos do meu pescoço e ficou me olhando por alguns segundos. Olhar para ele com a boca manchada de sangue, o meu sangue, me deixou enjoada, mas melhorei quando minha visão começar a turvar e eu não consegui distinguir mais nada. Meu coração acelerou de tal forma que desejei ter um ataque cardíaco para encerrar de uma vez com aquele sofrimento.
Jamais pensei que a transformação fosse tão dolorosa assim.
Está quase no fim... — ouvi a voz dele dizer ao longe. — Preciso apenas que você beba o meu veneno para poder renascer.
Eu já não me mexia mais, todo o meu corpo era feito de chumbo e desisti de lutar a muito tempo. Já começava a sentir aquela sensação reconfortante e abençoada de quando se cai na inconsciência do sono, no meu caso, da morte para descansar.
Minha alma estava longe e eu senti vagamente um líquido espesso escorrer em minha boca e descer pela garganta, acho que era sangue, pois tinha um gosto ferroso e doce ao mesmo tempo. Devia ser o sangue dele.
Acostumei com a inércia e a paz do lugar para onde minha alma fora, mas algo abrupto e cruel me puxou de volta ao meu corpo, fazendo com que eu sentisse a pior dor de toda a minha vida. Meu corpo todo queimava, tinha a sensação de que seria partida ao meio. Era como se os meus ossos estivessem sendo todos esmagados ao mesmo tempo e minha pele parecia se desprender do corpo. Eu não respirava, não me movia e meu coração quase não batia mais. Por que aquilo não acabava logo? Acho que o sangue de Wagner foi pior do que a sua mordida. Por um breve momento, antes de começar a perder os sentidos, desejei que nada daquilo tivesse acontecido. O mesmo ser que eu tanto admirava e cultuava era o mesmo que havia matado minha mãe e meu pai, e modificara minha vida para sempre, sem nem ao menos saber se era isso que eu queria para mim. E foi então que a raiva começou a crescer.
Eu não suportava mais tanta dor assim e quando tudo se intensificou de forma insuportável, a única coisa que eu consegui pensar antes de cair na escuridão da inconsciência foi:
Vingança... vingança contra o vampiro que matou meus pais...”
 
Bem, queridos leitores, fico por aqui deveras chateada com a notícia, porque eu bem que deveria estar entre os que vão à Feira do Livro, mas... fazer o quê? Fica para o ano que vem.
Pode demorar, mas uma coisa é certa: Ainda estarei na Feira do Livro de POA!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Um comentário:

  1. Como assim, se assemelhe aos concursos públicos?

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