quarta-feira, 14 de junho de 2017

O Ciclo das Sombras - Cap. 2/ pt. 1

Olá Queridos Leitores,

Segue o capítulo 2 do Ciclo das Sombras para vocês. Espero que gostem.



CAPÍTULO 2

Início, fim e recomeço


A semana na Arts Design iniciou calma e sem nenhuma surpresa. Kimberly procurou se dedicar com maior atenção às tarefas que tinha para fazer. Queria ocupar a mente e não lembrar nem do final de semana que tivera, nem do sonho doido com a casa. Se direcionasse o pensamento exclusivamente ao trabalho, com certeza, o tempo passaria mais rápido e ela não ficaria imaginando coisas. Porém, quando isto acontecia, ela se concentrava de tal forma que entrava em seu mundo e não falava com ninguém ao seu redor.
Notando a quietude da colega, Penélope não esperou mais e perguntou:
— O que há de errado com você, Kim?
Brian parou o que estava fazendo e olhou para Kimberly esperando a resposta. Também tinha notado a mudança dela, mas não queria ser indiscreto e perguntar.
— Kim? — Penélope tornou a perguntar.
— Hein? — Disse olhando para Penélope como se estivesse vendo-a pela primeira vez.
— Eu perguntei se está tudo bem com você. Observei que você está diferente. Aconteceu alguma coisa no final de semana que a deixou preocupada?
Ela olhou para o monte de papel espalhado sobre a mesa, olhou para a tela do computador, tornou a olhar para os papéis e respondeu, após um longo suspiro:
— Não consegui dormir direito neste final de semana, tive um sonho amalucado e depois fiquei me lembrando deles... Está bem difícil...
Penélope mordeu o lábio inferior, passou a mão pelo rosto e sugeriu com certo receio:
— Gostaria de passar algum tempo lá em casa? Quem sabe você não está precisando de uma mudança de ares? O que você está passando é muito para uma pessoa só.
Uma vez que Kimberly não respondeu, Penélope continuou como se estivesse se desculpando por ter falado algo que não devia.
— Se falei algo que a incomodou, peço desculpas. Queria ajudar de alguma forma, mas não sei por onde começar...
— Eu também gostaria de ajudar, se puder — acrescentou Brian meio sem jeito.
Ela olhou para os colegas e sorriu. Era bom saber que havia alguém que se preocupava com ela, de alguma forma.
— Obrigada pessoal, mas acho que, com relação a isso, não há muito que fazer. Penso que só o tempo pode curar esta ferida. — Fez uma pausa e disse. — Gente, eu é que peço desculpas se estiver sendo inconveniente, sei que alguém como eu acaba baixando o astral do ambiente...
O silêncio respondeu, mas Penélope não deixou que se estendesse muito.
— Kim, pare com isso. Nós sabemos que não é nada fácil o que você está passando, não seja dura demais consigo. Só quero que saiba que nós todos estaremos aqui para ajudá-la no que for preciso. Não fique acanhada em pedir auxílio a qualquer um de nós... somos seus amigos.
Kimberly tornou a sorrir e disse:
— Sei disso, agradeço todos os dias por ter amigos como vocês... — olhou para a porta da sala e falou mais alto — e agradeço a vocês que estão escutando atrás da porta também — terminou sorrindo mais.
Brian e Penélope olharam ao mesmo tempo para a porta e viram Cristiano, Martin e Evelin entrarem.
— Puxa, mas onde raios a educação de vocês foi parar? — Perguntou Brian divertido. — Por acaso, perderam?
— Nada disso, — respondeu Cristiano — nós estávamos a caminho daqui quando escutamos o que Penélope estava dizendo, então paramos para ouvir e aproveitar para dizer que as palavras dela também são as nossas. Pode contar com a gente para qualquer coisa, Kim.
Kimberly olhou para o semblante de cada um e sorriu. Era bom estar entre amigos. Ali, ela sabia que tinha com quem contar, embora não gostasse de ocupar os ouvidos das pessoas com seus problemas.
— Tá bom, tá bom, vocês venceram. Qualquer problema vou encher o saco de vocês e olha que eu sou chata, hein? — Terminou sorrindo.
Todos sorriram e, naquele momento, uma espécie de acordo entre os seis colegas estava formado. Acontecesse o que acontecesse, eles estariam juntos para ajudarem uns aos outros.


No final da tarde, Martin passou na sala de Kimberly e lhe perguntou:
— Olá dona ocupada, gostaria de sair para tomar um refresco hoje?
Kimberly sorriu para Martin e respondeu prontamente:
— Claro que sim, eu vou gostar muito.
Após despedirem-se dos colegas, os dois se dirigiram para a parada de ônibus. Enquanto esperavam, ela perguntou:
— Aonde vamos hoje?
— Estava pensando em ir naquele lugar que fomos com a galera na semana passada. Que acha?
— Bem legal. Gostei do lugar, o pessoal nos atende super bem, né?
“Ai, ai... a casa de novo e eu que achei que não ia mais pensar nela tão cedo...” — pensou Kimberly olhando na direção de um ônibus que se aproximava.
Aguardaram uns cinco minutos mais até que o ônibus que os levaria ao lugar desejado chegou. Embarcaram e se acomodaram no banco dos fundos. Após um tempo Martin, não se contendo, começou:
— Kimberly, sei que não é da minha conta, mas fiquei preocupado com o que aconteceu hoje lá na empresa. Você está precisando de alguma ajuda e não quer nos contar? Sabe que pode contar conosco, né?
Ela olhou pela janela. Avistou um casal de namorados passeando alegremente pela calçada e olhou para Martin. Ele esperava por alguma resposta e ela seria sincera com ele.
— Martin, sei que posso contar com vocês e sei disso muito bem depois do que aconteceu hoje, mas eu simplesmente não sei o que fazer. Tem sido mesmo muito complicado isso tudo. Sei que já passaram seis meses, mas mesmo assim não consegui seguir o curso normal da coisa. Parece que para onde quer que eu olhe, eu vou vê-los sorrindo e conversando comigo. É como se eles estivessem sempre comigo. É muito estranho... — disse olhando para as mãos.
— Não é nada de estranho não — afirmou ele. — Imagino que seja assim mesmo, ainda mais se você era apegada a eles e tinha muita afinidade. — Fez uma breve pausa e continuou. — O que você está fazendo é algo que eu não sei se conseguiria fazer se tivesse acontecido comigo. Você é muito forte Kim. Não posso dizer que isso vai passar, porque sei que não vai... Você sempre se lembrará deles, não há como esquecer. Por isso, não seja tão dura consigo mesmo. Dê tempo ao tempo e seja menos severa. Vai ver que, aos poucos, você vai melhorar.
Kimberly não resistiu e deitou a cabeça no ombro dele. Ele tinha o poder de fazê-la sentir-se melhor. Ficaram assim por mais algum tempo até que tiveram de levantar para descer.
Caminharam em silêncio até o bar. Escolheram uma mesa isolada das demais e que, por “coincidência”, ficava de frente para a casa. Após terem se acomodado, Martin fez o pedido à garçonete e, assim que ela se afastou, ele olhou nos olhos castanhos de Kimberly e disse sorrindo:
— Sabe, fico feliz por estarmos saindo mais seguido juntos.
Ela balançou a cabeça afirmando e respondeu:
— Para ser bem sincera, eu também estou feliz, mas peço... — fez uma pausa, escolhendo as palavras, pois não queria de forma alguma magoá-lo — vamos com calma. Eu sempre fui muito clara com relação a isso, não quero dar uma ideia errada...
Martin segurou as mãos dela entre as suas e disse calmamente:
— Não esquenta Kim, sei muito bem o que você me disse. Não precisa se preocupar, porque eu não vou passar o sinal vermelho, só se você pedir. E além do mais, só tendo a sua presença, mesmo como amiga, já me deixa muito contente.
Kimberly dirigiu um largo sorriso e respirou aliviada. Era bom saber que podia se sentir segura com Martin. Sabia que ele falava a verdade e que não iria fazer nada que ela não quisesse.
Estava começando a relaxar quando viu uma luz se acender na casa a sua frente. Não escondeu a curiosidade e virou rapidamente o rosto em sua direção.
— O que foi Kim? — Ele questionou curioso, olhando na mesma direção.
Desta vez, ela não se preocupou em disfarçar a curiosidade sobre a casa e disse:
— Aquela casa... é tão esquisita. Ela chama a minha atenção como nenhuma outra. Está para vender, logo não poderia ter ninguém morando nela, como a luz se acendeu?
Martin analisou a casa e respondeu:
— Ora, provavelmente os donos devem ter entrado para dar uma olhada ou para arrumar alguma coisa. Isso é normal. — Fez uma breve pausa e perguntou. — Como você sabe que a casa está abandonada?
Kimberly olhou para Martin com os olhos arregalados. Tinha ido longe demais na história da casa, mas... pensando bem, que mal havia em falar para ele o que é que realmente tinha acontecido? Após um breve suspiro, começou a contar.
— No sábado passado, depois que eu voltei da visita ao meu tio, resolvi descer na parada perto da casa e caminhei até lá para ver o que é que havia que me chamava tanto a atenção.
Martin permanecia em silêncio ouvindo as palavras dela. Por um momento, Kimberly achou que ele estivesse esperando uma brecha para caçoar dela por ter tido uma atitude tão absurda, mas não foi isso que viu em seus olhos. Ele a ouvia com atenção e interesse.
— Pois então, — continuou — caminhei até o portão de ferro da casa. Olhei por tudo e percebi que a casa estava abandonada. O jardim está muito malcuidado, a estradinha que deveria existir ali nem dá para ver direito de tanto capim que tem. Eu ia abrir o portão para olhar mais, mas com aquele mato todo desisti, vai que aparece um bicho esquisito por ali.
Com o comentário de Kimberly, Martin não conteve uma gargalhada, fazendo com que outras pessoas se virassem para ver o que é que estava acontecendo.
— Continue, é que ficou engraçada a forma como você disse isso. Por um momento, imaginei um bicho-papão saindo do mato — respondeu sorrindo.
Kimberly riu junto com ele. A imagem de um monstro saindo por entre o capim, naquele contexto ficou mesmo engraçado.
— É... — disse sorrindo — agora é engraçado imaginar isso, mas no dia que eu estava ali, não achei graça nenhuma. A sensação que eu tive foi de que havia de fato alguém ali, me observando.
Ele ergueu uma sobrancelha e a ouviu sem comentar mais nada.
— Eu me virei para ir embora, pois estava mesmo ficando com medo, então eu senti um perfume... — parou a narração lembrando o aroma que sentira. — Um perfume doce amadeirado... um perfume importado, tão bom... Mas se não tinha ninguém ali por perto, como eu poderia ter sentido esse aroma?
Martin se ajeitou melhor na cadeira, colocou os cotovelos sobre a mesa, entrelaçou as mãos e disse enquanto olhava na direção da cozinha do bar:
— Puxa, a demora está tão grande que, quando a gente resolver ir embora, vão trazer o nosso pedido... — olhou para Kimberly e continuou. — Mas isso pode acontecer. Acontece frequentemente comigo. Às vezes, do nada, eu sinto um perfume muito bom, mas não tem ninguém comigo.
Ela baixou os olhos para a mesa, ponderou o que ele disse e respondeu:
— É, provavelmente, você tem razão, não há nada para temer... vai ver foi uma brisa que trouxe o perfume e eu fiquei imaginando coisas... mas a sensação de que tinha alguém me espiando foi forte demais para ser ignorada. Até a cortina da janela mexeu e não tinha vento naquela hora.
— Bem... aí fica complicado, mas em princípio não é nada alarmante — disse calmamente.
Kimberly olhou novamente para a casa e para a janela cuja luz estava acesa. “O que é que estava acontecendo?” — Pensou intrigada.
— Adivinha? — Perguntou Martin de repente, tirando Kimberly de seus devaneios. — Poderemos tirar essa dúvida em seguida.
— Dúvida? — Perguntou sem entender nada. — Que dúvida?
Ele ia responder, mas esperou, pois a garçonete havia aparecido para trazer o pedido deles.
— Já não era sem tempo — ele falou assim que ela se afastou.
Espetou algumas batatas-fritas e continuou:
— Voltando ao assunto... eu dizia que podemos tirar a sua dúvida com relação à casa, se há ou não alguém morando nela. Meu primo está para se mudar e quer uma casa. Posso falar dela — disse olhando para a casa — se ele se interessar, poderemos fazer a visita juntos, que acha?
Kimberly olhou mais uma vez para a casa. A luz ainda estava acesa.
Abriu um largo sorriso e disse:
— Se ele não se importar, eu iria adorar acompanhar vocês.
Passaram as horas seguintes conversando sobre banalidades e assuntos da empresa. Quando Kimberly olhou para o relógio pela primeira vez desde que chegaram, levou um susto, pois o relógio marcava dez para a meia noite.
— Martin, — exclamou — você viu que horas são?
No mesmo momento Martin olhou para o seu relógio e disse enquanto erguia as sobrancelhas, surpreso:
— Credo! Não vi o tempo passar. Nós ficamos aqui de papo e já está tarde demais! E amanhã é a recém terça-feira. Puxa! Desse jeito você não vai mais querer sair comigo! — Falava enquanto pegava o casaco e o vestia.
— Também não é assim — disse Kimberly também se arrumando para sair.
Martin pagou a conta e caminharam a passos rápidos para a parada de ônibus.
Como já era tarde, o último ônibus demorou a chegar. Kimberly achou que Martin ia seguir o caminho quando ela se levantou para descer, mas se enganou quando percebeu que ele iria descer junto com ela.
— Martin, está muito tarde, acho melhor não descer comigo — disse enquanto se encaminhava para a porta de saída do ônibus.
— Não mesmo, — falou seguindo-a — vou com você. É minha responsabilidade saber que você está sã e salva em casa. Ficaria com grande remorso se eu seguisse o meu caminho e acontecesse alguma coisa com você, ainda mais, porque fui eu quem a convidou para sair.
Ela ficou quieta, não havia argumentos depois do que ele disse.
Assim que chegaram ao portão do prédio onde Kimberly morava, Martin se despediu dela com um beijo como da outra vez em que saíram. Ela se odiou por ter retribuído, mas embora não quisesse namorar com ele, não achava que estava fazendo algo fora da lei apenas por beijá-lo. De qualquer forma, ela achou melhor avisar:
— Martin, não se esqueça do que...
— Eu sei, — disse interrompendo-a enquanto fazia um gesto com a mão para fazê-la silenciar — já lhe disse que estou muito ciente da situação. Não se preocupe.
O coração dela batia forte, a presença de Martin fazia com que ela ficasse sempre alerta. Estava sendo cautelosa ao máximo, porque não queria, de forma alguma, magoar alguém tão amigo e gentil quanto ele. Depois que ele se afastou para ir embora, ela pensou enquanto colocava a chave no portão e o abria:
“Que Deus o proteja e que você chegue tranquilo em sua casa.”


O dia seguinte foi muito corrido. Kimberly atendeu dez novos clientes e estava muito envolvida com um projeto importante de um encarte de vendas de uma loja fina e muito conceituada que estava inaugurando uma filial no novo shopping da cidade.
— Boas notícias para você — falou Martin atrás dela.
Kimberly estava tão concentrada que não o viu entrar na sala e muito menos se aproximar dela. Deu um salto da cadeira, derrubando alguns papéis.
— Desculpe — apressou-se em dizer enquanto erguia os papéis do chão — achei que você tivesse me visto.
Com a mão no peito, ela respondeu:
— Estava absorta no encarte da loja do shopping que nem vi você chegar — falou tentando normalizar a respiração.
Martin aguardou alguns segundos até que Kimberly tivesse se recuperado do susto que levara. Enquanto ela organizava os papéis que tinha deixado cair, ele conversava com Brian sobre o jogo de futebol que iria passar na televisão na quarta-feira. Depois que Kimberly guardou seu material de trabalho foi se juntar a eles, apoiando-se na mesa de Brian.
— Não sei não, mas acho que amanhã vocês vão perder — dizia Brian animado.
— Nós ganharemos com certeza, mesmo que o time que for jogar amanhã seja só de reservas.
Brian fez uma careta sobre o comentário e disse mais alguma coisa que passou despercebida por Kimberly, pois ela tinha se afastado da mesa e se aproximava de Penélope, que estava se arrumando para ir embora.
— Esses dois não têm mais nada para conversar? Só sabem falar de futebol — comentou.
Penélope ergueu os olhos e respondeu:
— Imagino que homem que não fale sobre futebol ou é de outro planeta ou é florzinha — e sorriu com a própria piada. Pegou a bolsa e disse. — Boa noite pessoal. Vou embora, porque amanhã tem um monte de coisas para fazer e eu quero dormir cedo hoje. Até amanhã.
— Até amanhã — responderam os três em uníssono.
Assim que Penélope saiu da sala, Brian também se despediu e saiu logo em seguida, deixando Martin e Kimberly sozinhos.
Enquanto esperava Kimberly pegar a bolsa, ele disse:
— Lembra a história da casa? Pois é, falei com meu primo e ele adorou a ideia. Gostou mais ainda quando soube que fica perto da empresa em que trabalho. Assim, se a casa estiver em perfeitas condições, ele vai querer se mudar.
Kimberly sorriu com a possibilidade de ver, finalmente, a tão desejada moradia.
— Quando é que ele vai fazer a visita? — Questionou enquanto pegava a pasta contendo o projeto da loja.
— Ele queria vir hoje, mas tinha um compromisso e resolveu deixar para amanhã. Nós faremos o seguinte: ele vai vir aqui depois do expediente e nós vamos à imobiliária pegar a chave para ver a casa — olhou para ela por um instante e perguntou. — Você não tem nenhum plano para amanhã, tem?
Ela sorriu de novo e respondeu:
— Plano? É mais certo o seu time ganhar amanhã do que eu ter algum plano.
Por aquela Martin não esperava e sorriu animado com o comentário dela.


Kimberly chegou em seu apartamento tremendo de frio. Não imaginou que a temperatura iria baixar tão bruscamente, embora o Outono já tivesse iniciado. Largou suas coisas na cadeira que havia na entrada do apartamento e dirigiu-se rapidamente, com os braços em torno de si mesma, para o quarto. Iria tomar um banho bem quente para ver se conseguia dissipar o frio.
Enquanto tomava banho, Kimberly sorria alegre, pois finalmente iria conhecer a tão famosa casa. Era bom demais que os fatos coincidissem de tal forma fazendo com que, o que ela mais desejara, acontecesse.
Após o banho, foi até a cozinha preparar um lanche. Depois de comer, organizou tudo e foi-se deitar. Tinha muito trabalho amanhã e uma visita muito importante para fazer.
Enquanto esperava o sono chegar, pensava na empresa em que trabalhava. Vilton com certeza era um bom chefe. Ele acreditava no potencial dela, caso contrário, não delegaria a ela uma tarefa tão importante quanto o projeto da loja do shopping.
“Fico orgulhosa com isso.” — Refletia animada. —“É bom mesmo quando a gente é reconhecida por todo o esforço que dedicamos à determinada tarefa. Que bom que o chefe me reconheceu... vou me dedicar mais ainda. Talvez até o meu cargo na empresa suba um pouquinho” — terminou o pensamento sorrindo satisfeita.
Kimberly levou algum tempo ainda para conseguir dormir e quando o fez, novamente sonhou.


Ela estava dentro da casa. Estava tudo escuro e ela tinha que caminhar devagar se não quisesse bater nos móveis a sua frente. Não havia um barulho que acusasse a presença de outra pessoa ali, a não ser ela.
“O que é que eu estou fazendo aqui?” — Pensava enquanto caminhava devagar para não bater em nada. — “Eu ainda não fui fazer a visita com Martin, como posso estar aqui, então?”
Continuou caminhando. O escuro atrapalhava muito sua expedição, mas Kimberly não iria desistir tão fácil, já que conseguira entrar na casa sem esforço algum. Às vezes, era bom ter sonhos desse tipo, pois não era preciso se preocupar em como as coisas aconteciam, simplesmente se devia deixar o curso dos acontecimentos seguir. Passou pela sala e encaminhou-se até as escadas. Começou a subir degrau por degrau bem devagar para evitar errar o pé e cair um tombo feio. Quando chegou ao segundo andar, continuou caminhando devagar pelo corredor. Parou por um momento quando viu que havia uma claridade no aposento ao fundo do corredor, que ela julgou ser um quarto.
Respirou fundo e continuou caminhando até chegar perto da porta. Colocou a mão devagar sobre a maçaneta e a girou lentamente, com medo de que o possível barulho que fizesse pudesse despertar alguma coisa na casa. Quando abriu a porta, percebeu que não era a luz de uma lâmpada que iluminava o ambiente e sim a luz de uma vela.
“Acho que não pagaram a luz nesse mês...” — pensou enquanto entrava no quarto.
Era um quarto muito bonito e decorado com elegância. Pela disposição dos móveis, ela deduziu que o quarto pertencia a um homem, provavelmente, o dono da casa. Encaminhou-se ao centro do espaçoso aposento até ficar de frente para a cama de casal. Olhou em volta e não viu nada que pudesse chamar sua atenção, o quarto estava vazio.
Antes que pudesse se virar para ir embora, sentiu aquele aroma conhecido, o perfume doce amadeirado que a deixava tonta. Ela não estava mais sozinha.
Hallo, meine Liebe (olá, minha querida) — sussurrou a voz, em alemão, atrás dela. — Estava esperando por você — disse em português, mas com um sotaque muito forte.
Desta vez, ele não a segurou pela cintura. Foi ela quem se virou lentamente para ver o que estava acontecendo. Quando deu o giro completo, Kimberly se deparou com o mesmo homem do sonho anterior. Naquele momento, não conseguiu fazer mais nada, simplesmente parou. A única coisa que conseguia fazer era olhar para os olhos verdes azulados dele e para a palidez de sua pele.
“Nossa...” — pensou enquanto suspirava — “ele parece com os deuses gregos esculpidos em mármore... como é lindo!”
— Esperei por muito tempo... e finalmente você chegou — ele falou com sotaque alemão.
Kimberly não percebeu, mas enquanto falava, ele ia empurrando-a lentamente em direção à cama.
— Não consigo entender... — foi a única coisa que ela conseguiu dizer antes de recuar mais alguns passos e acabar se deitando na cama.
Ele sorriu de modo enigmático e disse enquanto deitava-se sobre ela:
— Não consegue entender? Nein (não)? Tenho observado você todos os dias quando passa em frente a minha casa. Observei cada movimento seu quando você tentou entrar no pátio — agora o sotaque dele estava tão forte que faltava pouco para começar a falar em alemão.
Kimberly sacudia a cabeça tentando não ouvir o que ele dizia. Era só um sonho, nada demais e, no entanto, estava se tornando muito real... real até demais.
Ela tinha vontade de se afastar dele e ir embora, estava muito perigoso ficar ali com ele, um estranho. Tentou se erguer para ir embora, mas não conseguiu, acabou tonteando quando aspirou novamente o perfume dele.
Ich weiβ... Ich weiβ... (eu sei... eu sei...) que você tem observado minha casa há muito tempo e que tem sobre ela um fascínio inexplicável.
Kimberly olhou para ele admirada com a informação. Aquilo era um sonho ou o quê? Estava muito real para ser apenas um sonho. Não conseguiu fazer nem dizer mais nada, estava sem ação.
Ele sorriu carinhosamente para Kimberly e disse enquanto segurava uma mecha dos cabelos dela:
— Sei que parece absurdo, mas não é.... Das ist kein Traum, es ist wahr (isto não é um sonho, é verdade.). E quando você acordar, vai se lembrar de tudo isso claramente...
Ele levou a mecha de cabelos dela até o nariz para que pudesse aspirar o seu perfume, depois soltou a mecha e passou a mão lentamente pelo rosto dela. Ao sentir o toque da mão dele em seu rosto, Kimberly se encolheu instintivamente, pois a mão dele era fria como gelo e ela sentiu frio. Em seguida, ele virou delicadamente a cabeça dela para o lado esquerdo e disse enquanto aproximava o rosto do pescoço dela:
— Você tem um perfume maravilhoso... e o sangue puro... intocado. É inebriante.
Kimberly não conseguiu normalizar a respiração, que estava acelerada. Ele a estava deixando sem condições de raciocinar. Tentou afastá-lo, mas não conseguiu, ele parecia ser feito de pedra e era muito forte.
Ele aproximou os lábios do pescoço dela e o beijou, fazendo com que Kimberly prendesse a respiração. Em seguida, se afastou para olhar para os olhos castanhos dela.
— Ficarei esperando por você... Bis morgen meine Prinzessin (até amanhã, minha princesa) — disse e a beijou nos lábios.
Kimberly não conseguiu impedir e nem tentou. O beijo dele era especial, suave e fazia com que ela perdesse completamente a noção de tempo e espaço. Ele a estreitou mais em seus braços fortes fazendo com que ela não conseguisse respirar, quando Kimberly percebeu que iria acabar desmaiando por falta de ar, abriu os olhos de repente e percebeu que não estava mais na casa e sim em seu quarto. Permaneceu por um tempo olhando para o teto, tentando ordenar os pensamentos. Quando se sentiu mais calma, sentou-se na cama, dobrou as pernas e abraçou-as, apoiando a cabeça nos joelhos.
— Outro sonho maluco... — murmurou pra si mesma — mas foi tão real... ainda consigo sentir o perfume... quem é ele? Quem é esse homem que aparece em meus sonhos e me tira do sério? — Questionou novamente enquanto voltava a deitar e tentava dormir de novo.


Até a próxima semana,



domingo, 4 de junho de 2017

O Ciclo das Sombras - Cap. 1/ pt. 7

Olá Queridos Leitores,

Aqui estou eu com mais um pouco do capítulo 1 para vocês.
Espero que gostem.

Capítulo 1/ pt. 7

Quando acordou, levou algum tempo tentando lembrar onde estava. Constatou que estava sozinha em seu quarto. Tivera um pesadelo.
A respiração levou muito tempo para voltar ao normal e Kimberly ficou uns vinte minutos sentada no escuro tentando entender o sonho louco que tivera. Olhou para o relógio no criado-mudo e constatou que eram só três horas da manhã. Teria uma longa noite pela frente.


O domingo transcorreu lento e monótono como sempre. Kimberly não iria limpar a casa de novo e, como não tinha nada para fazer, pegou um livro na estante e começou a ler. O título “O amor dura para sempre” pareceu sugestivo. Ganhara o livro de sua avó dois anos antes de ela falecer. Era uma espécie de herança de família, uma vez que sua avó tinha herdado da mãe dela.
“É a história de como o amor pode ser eterno se for bem cuidado e cultivado todos os dias” — sua avó dissera no dia em que lhe deu o livro de presente.
Era uma história muito bonita de um jovem casal que passara por todas as discórdias, intrigas, inimizades e desconfianças criadas pelas pessoas que os invejavam. Eles venceram tudo porque simplesmente respeitavam e confiavam um no outro.
Kimberly acomodou-se melhor no sofá, parou a leitura por um instante e começou a pensar: “Como seria bom se houvesse um amor assim, no qual os dois sempre estivessem juntos e não se abalassem por nada.”

            Deitou a cabeça no encosto do sofá e fechou os olhos. Gostaria de encontrar um amor assim, alguém com quem pudesse confiar e abrir o seu coração, partilhando tanto as coisas boas quanto as ruins. A primeira pessoa que lhe veio à mente foi Martin, mas ela não conseguia sentir esse tipo de amor por ele. Gostava muito dele, mas era amizade, não amor. Respirou fundo e levantou do sofá deixando o livro aberto na página que estava lendo. Caminhou até a janela e olhou a paisagem. Estava anoitecendo. Era a hora do dia que Kimberly mais detestava. O sol morrendo, a noite chegando e a certeza que mais uma vez tudo ia começar de novo fazia Kimberly sentir um aperto no coração e uma nostalgia muito grande. Há meses atrás, ela estava sentada na varanda da casa de sua mãe, tomando chimarrão e conversando com seus familiares. A lembrança veio com tanta força que ela não resistiu e deixou as lágrimas caírem livremente pelo rosto. Desistiu de reprimir o sentimento e chorou durante muito tempo, talvez assim, ela pudesse pôr para fora a tristeza que sentia.

Até a próxima Queridos Leitores,




sábado, 3 de junho de 2017

O Ciclo das Sombras - Cap. 1/pt. 6

Olá Queridos Leitores,

Após muito tempo,cá estou eu publicando mais uma parte do primeiro capítulo. Espero que gostem.

Cap. 1/ pt. 6

Permanecia quieta durante o trajeto de volta para casa quando uma ideia lhe surgiu de repente:
            “E se eu descesse na parada da casa e fosse dar uma voltinha só pra ver como é?”
            Parecia algo sem pé nem cabeça, mas não custava nada tentar. O máximo que iria acontecer era não passar do portão de ferro e ter de voltar para casa no próximo ônibus.
            “Vamos lá então...” — disse enquanto se levantava e acionava o sinal para descer. — “O que parece eu com esta cesta de piquenique descendo aqui nesta parada. Parece a Chapeuzinho Vermelho indo visitar o Lobo... — pensou rindo do pensamento que teve.
            Desceu na parada vazia. Olhou ao redor e não viu ninguém. Por um momento ficou indecisa, mas decidiu seguir em frente, não tinha descido do ônibus só para ter que esperar o próximo ônibus. Seria idiotice.
A cada passo que avançava, Kimberly sentia o coração acelerar. Era uma sensação muito estranha, como se ela fosse encontrar alguma coisa na casa abandonada.
Caminhou até chegar às grades de ferro. Com a mão livre, segurou a grade enferrujada como se estivesse buscando apoio para não perder o equilíbrio. Permaneceu assim por algum tempo tentando entender o porquê estava ali parada.
“Doida, doida, doida...” — pensou consigo mesma. — “O que eu estou fazendo aqui, nervosa desse jeito? É só uma casa aband...” — parou o pensamento, pois sentiu que havia algo errado ali.
Havia alguém atrás da janela do terceiro andar... a sensação de estar sendo observada ficou muito forte e Kimberly desviou o olhar da casa e olhou para a sua mão agarrada à grade de ferro.
“Preciso sair daqui...” — pensou, mas sua mão não aliviou nem um pouco o aperto na grade. Parecia ter colado a mão ali para sempre.
Tornou a olhar para a janela. Olhando mais atentamente percebeu que não havia nada além do vento brincando com as cortinas.
— Imaginação absurda — disse para si mesma.
Aos poucos, conseguiu abrir a mão e soltar a grade, mas a sensação de que estava sendo observada ainda era muito forte.
Kimberly continuou parada em frente ao portão por mais alguns minutos. Não sabia se entrava ou se ia embora. Olhou mais uma vez para a casa e depois lançou o olhar para o terreno a frente. O capim crescera e se espalhara pelo que fora antes um jardim. O caminho que levava até a entrada da casa havia desaparecido há tempos.
— Vou deixar para bancar o Indiana Jones outra hora — falou para si mesma — pode ter um bicho por aí e eu não quero me assustar mais do que já estou.
Suspirou e deu meia volta. No terceiro passo ouviu algo que fez seu sangue gelar nas veias. Parecia uma respiração. Uma respiração lenta e pesada bem atrás dela, por cima do ombro direito. A certeza de que, agora, tinha alguém ali, deixou-a paralisada de pavor. Não havia muito a fazer, ou ela se virava e verificava o que era ou então permaneceria ali por um bom tempo, até que pudesse se controlar mais.
Uma brisa suave passou por ela fazendo-a sentir um leve perfume doce amadeirado. Kimberly inspirou profundamente o perfume e pensou:
“Deus, que cheiro bom! Deve custar uma fortuna um perfume destes.”
Mal terminou de pensar isto e se assustou de novo. Se não havia ninguém por perto, como poderia haver um perfume como se realmente houvesse alguém ali, com ela?
“Chega, é agora ou nunca” — pensou virando-se bruscamente.
Não encontrou nada nem ninguém, só o portão fechado, o jardim malcuidado e o silêncio da casa.
“Eu disse que não tinha nada”— pensou suspirando aliviada. — “Estou ficando doida. Está na hora de voltar para a casa.”


Kimberly não almoçou quando chegou a casa. Estava cansada como se tivesse corrido quilômetros sem parar. Ela não imaginara que a visita a casa resultasse em um pré-ensaio de ataque cardíaco. Nunca ficara tão assustada e seu coração nunca batera tão rápido como batera quando ela podia jurar que realmente havia alguém atrás dela.
— Eu disse que tinha algo estranho na casa — falou para si mesma.
De repente, Kimberly não sabia o que fazer. Era sábado e ela não tinha plano algum. Não tinha amigos para sair, não tinha parentes para visitar, não tinha familiares para conversar... não tinha ninguém além do tio que visitava quinzenalmente. Atirou-se no sofá da sala e falou em voz alta:
—Talvez eu devesse comprar um bicho de estimação e me entreter um pouco... sair para passear com ele... levar ao veterinário... limpar a sujeira que fizer no apartamento... — parou por um momento e decidiu. — Não. Decididamente, um bicho de estimação está fora de cogitação.
Tentou se imaginar brincando com um cachorrinho. Chegou a rir da situação, mas mesmo que tivesse condições de sustentar o bichinho, não tinha paciência para cuidar dele. Seria um caos chegar todas as noites e ter de limpar a sujeira que ele faria enquanto ela estivesse fora ou ter de sair para passear mesmo em dias chuvosos e frios, porque o bichinho iria querer sair para fazer as suas necessidades. Não, realmente não era uma boa ideia.
Recostou a cabeça no sofá e fechou os olhos. A primeira imagem que lhe surgiu foi a casa: quieta, silenciosa e abandonada... Tinha que haver alguma coisa estranha com aquela casa... não era normal... Será que havia mendigos morando nela? Se houvesse, como explicar aquela sensação terrivelmente forte de que alguém estivera ali com ela? Mendigos não eram sorrateiros e, sem dúvida nenhuma, não cheiravam a perfume importado.
— Deus do céu... chega disso — falou como se estivesse conversando com alguém. — Eu estou loquiando. Isto não é normal... essa obsessão por essa casa...
Abriu os olhos e se inclinou para frente para apoiar a cabeça nas mãos. Aquilo tinha que parar, estava ficando doentio.
— Vou acabar fazendo companhia para o meu tio assim...
Balançou a cabeça como se quisesse eliminar tal pensamento. Mas o que poderia fazer? Há seis meses ela não tinha vida social. Só ia de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Não falava com mais ninguém a não ser seu tio e os colegas de trabalho, quando estava na empresa. Precisava iniciar algo diferente, não podia desperdiçar sua juventude e sua vida desse jeito. Sua família tinha morrido, mas ainda havia Douglas, e ela deveria ser forte pelos dois, principalmente quando seu tio recobrasse a razão e percebesse a verdade dos fatos. Kimberly precisava estar lá para ampará-lo.
Mas ainda assim, era esquisito. Era esquisito que uma casa pudesse chamar tanto sua atenção. Kimberly era muito racional para a maioria das coisas que lhe aconteciam, mas sabia que havia alguma coisa além do racional naquela moradia. O que acontecera pela parte da manhã não era normal. A sensação de que tinha alguém ali, observando-a, era muito palpável e ela ia sim investigar o que é que estava acontecendo. Não importava o tempo que levasse e isso era o que ela mais tinha no momento: tempo.
Sem ter o que fazer durante o resto do sábado, Kimberly arrumou a casa pela terceira vez na semana. Quando o relógio marcou vinte e duas horas, tudo já estava organizado. Não restava mais nada a não ser tomar banho e ir dormir.
Depois que deitou, Kimberly demorou a pegar no sono. Muitas imagens passavam em sua mente. A lembrança de Martin passeando com ela no shopping, a visita que fizera ao tio, a expedição doida a casa, a sensação de... Com esse pensamento, Kimberly finalmente dormiu. E sonhou.


Estava novamente parada em frente a casa. O dia estava terminando e o sol se pondo. O silêncio era esmagador e não havia ninguém pelas redondezas. Então, ela soltou a grade de ferro, virou-se e caminhou para longe, mas não pôde seguir adiante porque a mesma respiração que sentira de manhã estava ali, de novo, sobre o seu ombro direito.
Anoitecia rapidamente e a escuridão tomava conta de tudo. O medo de antes triplicara e Kimberly sentia o coração doer de tanto bater forte.
            “Não posso me virar” — pensou no sonho. — “Não estou mais corajosa como antes... vou morrer de medo.”
A presença era muito forte. Kimberly tinha certeza de que não estava sozinha.
Paralisada de pavor, Kimberly começou a ficar tonta e se deu conta de que iria desmaiar se não voltasse a respirar. Aspirou o ar com dificuldade e, quando pensou ter normalizado a respiração, sentiu o perfume doce amadeirado muito forte. Tonteou, perdeu o equilíbrio e, se não fosse pelas grades de ferro, teria caído de costas.
Suspirou aliviada e, por um momento, fechou os olhos. Mas havia algo errado ali, ela não estava apoiada no portão de ferro. De regra, portões de ferro não têm contornos humanos. Ela havia encostado-se a alguém. Alguém alto, forte e maciço como um portão de ferro. O terror que tinha se dissipado voltou com intensidade e, quando Kimberly ia juntar forças para se afastar, sentiu dois braços em torno de sua cintura e duas mãos pálidas entrelaçaram-se a sua frente, impedindo-a de se mover.
A respiração ficou mais forte em seu ouvido. Kimberly ia preparar-se para gritar quando de repente não estava mais de costas para quem quer que fosse e sim de frente. Ela girou tão rápido que fechou os olhos com força temendo ver um monstro. Os braços em torno dela estreitaram-se mais e o perfume doce invadiu seu nariz, deixando-a tonta. Lentamente, abriu os olhos e o que viu a fez perder o fôlego.
Diante dela havia um homem. Pálido e muito bonito, parecido com aqueles modelos de passarela. Seus traços eram finos e firmes ao mesmo tempo e o seu olhar fez com que Kimberly, por um momento, esquecesse quem era e onde estava. Eram verdes, mas não um verde comum. Eram verdes quase azuis e eram tão brilhantes... Kimberly sustentou o olhar e abriu a boca para dizer alguma coisa, mas o som não saiu e ela começou a ofegar.
Ele a apertou mais contra os braços fortes e falou com uma voz grave e em alemão:
Gute Abend meine Liebe. (Boa noite minha querida).
Kimberly sentiu um arrepio percorrer seu corpo como uma corrente elétrica. Ele era tão lindo, não parecia real e aqueles olhos... eram hipnóticos.
“O que foi que ele disse mesmo?” — Pensou tentando organizar os pensamentos.
Mas não conseguiu. Ele sorriu para ela de um jeito enigmático, fazendo-a desfalecer em seus braços e, quando ele ia se aproximar mais dela, provavelmente para beijá-la, Kimberly viu algo que a fez arregalar os olhos. Atrás dele, abriram-se duas asas enormes de morcego e, na mesma hora, ela soube que eram dele. Gritou com todas as forças:
— Não! ─ Gritou assustada enquanto acordava e sentava-se na cama.

Até a próxima!


sexta-feira, 31 de março de 2017

O Ciclo das Sombras - Cap. 1/pt.5

Olá Leitores,

Após muito tempo sem aparecer por aqui eu volto com a continuação do Ciclo.
Boa leitura. Espero que gostem.

Cap.1/ pt.5 

Assim que se identificou ao porteiro da clínica, Kimberly atravessou o portão de grades altas que rodeava toda a casa. Era uma casa grande, quase uma mansão, toda pintada de branco e tinha um jardim enorme e muito bem cuidado. Havia alguns bancos espalhados pelo jardim no qual os pacientes ficavam sentados para receberem suas visitas ou mesmo para descansar e respirar ar puro.
Douglas estava sentado, solitário, em um banco de pedra que ficava perto de um carvalho. Era o lugar preferido do tio e Kimberly sempre ia direto ao mesmo lugar nos seis meses que se seguiram depois do ocorrido.
Caminhou lentamente até chegar perto do banco e então disse com voz suave, para não assustá-lo:
— Oi, tio. Como vai hoje?
Douglas se virou lentamente, abriu um largo sorriso e disse para a sobrinha enquanto chegava para o lado dando lugar à Kimberly.
— Estou muito bem e você, sobrinha querida?
— Vou indo... — Douglas a olhava direto nos olhos e mantinha aquele sorriso infantil nos lábios. — Bem, trouxe umas bolachinhas salgadas e bolachas recheadas de chocolate que eu sei que você gosta muito.
— Oba, então vamos comer! — Disse animado.
Ele parecia uma criança feliz quando ganhava um presente muito desejado.
— Trouxe o chá de hortelã? — Perguntou com a boca cheia de bolacha recheada.
Kimberly fez que sim com a cabeça e preparou-se para pegar a garrafa térmica.
— Xii... — disse Kimberly com as mãos na cabeça — esqueci de trazer os copos!
— Não tem problema — falou Douglas levantando-se prontamente — vou falar com a enfermeira e pedir os copos, já volto — e saiu caminhando rápido em direção à clínica.
Vendo o tio sumir dentro da casa, Kimberly balançou a cabeça tristemente. O que um acidente não fazia na vida das pessoas...
A lembrança ainda era muito forte, mesmo depois de seis meses, parecia que tinha sido ontem...


Naquele final de semana, Kimberly não pudera ir com os pais, os tios e o avô para o litoral, pois tinha um curso de design que ocuparia a sexta-feira e o sábado inteiros. Como era um curso oferecido pela empresa para especialização, ela não poderia dar-se ao luxo de faltar, então tivera de ficar de “castigo” em casa, enquanto a família ia para a praia.
A sexta-feira e o sábado passaram tranquilos e uma parte do domingo também até ela receber a ligação de um número desconhecido em seu celular.
— É a Kimberly Longaray quem fala? — Perguntou uma voz desconhecida, parecendo um pouco nervosa.
— Sim, quem está falando? — Indagou começando a ficar preocupada.
— Aqui é a enfermeira do Hospital São Lucas. Sua família sofreu um acidente na estrada.
O soco que Kimberly levou no estômago foi forte demais, quase não conseguiu respirar. Sua visão turvou um pouco e ela conseguiu balbuciar algumas palavras:
— O-onde eles est-tão? O que tenho... o que tenho que... fazer?
Em poucas palavras a enfermeira deu o endereço do hospital e pediu para que ela viesse o mais rápido possível.
Há um minuto, Kimberly estava sossegada em seu apartamento, sentada em seu sofá, olhando um filme qualquer na televisão. Agora, pegava suas coisas rapidamente colocando-as em sua bolsa para sair o mais depressa possível para o hospital, onde uma enfermeira havia lhe dito que sua família havia sofrido um acidente na estrada. A vida tinha meios para abalar uma rotina tranquila...
— Que Deus permita que dê tudo certo e que todos eles estejam bem — disse para si mesma.
Mas Deus não queria isso. Ele tinha outros planos.


— Infelizmente, Kimberly — dizia o médico — só o seu tio conseguiu sobreviver. É um milagre que Douglas tenha conseguido sair com vida. Os outros não resistiram aos ferimentos... Lamento muito — falou colocando a mão no ombro dela.
Kimberly não disse mais nada, esperou o médico se afastar e caminhou lentamente até um banco que havia no corredor. Sentou-se em silêncio e ali permaneceu por mais de uma hora. Ainda não conseguia acreditar que tal fato tinha acontecido.
“Minha mãe e meu pai de uma vez só?” — Pensou tentando controlar as lágrimas. — “E meu vô... Como será que Douglas vai ficar quando souber que a esposa dele morreu também?”
A tragédia não parava por aí, além de a família inteira ter morrido no acidente, com exceção de Douglas, a esposa dele, que falecera também, estava grávida de sete meses.
Kimberly fechou os olhos com força, tinha de ser um pesadelo, não podia ser real. Era uma notícia muito cruel para ser dada a alguém tão jovem quanto ela.
Depois de todo aquele tempo sentada sem saber o que fazer, Kimberly se dirigiu ao quarto onde Douglas estava. O tio estava fisicamente fora de perigo, tinha sofrido alguns arranhões e tinha deslocado o ombro. Quando Kimberly entrou no quarto, ele estava dormindo. Sentou-se procurando não fazer barulho ao lado da cama e ficou quieta, esperando que ele acordasse.
Não demorou muito e Douglas abriu os olhos, levando alguns segundos até que ele dirigisse o olhar para ela.
— Oi tio, como vai? — Perguntou meio sem jeito, não tinha a menor ideia do que dizer.
— Acho que vou bem... — respondeu reticente. — Como vão... como vão as coisas?
Pergunta intimadora.
Kimberly olhou para todos os cantos do quarto sem saber o que dizer ou o que fazer. Será que deveria dizer a verdade a ele?
— Eu sei o que aconteceu... eles vão ficar bem? — Indagou com um tom de esperança na voz.
— Tio, eu...eu... eu nã — ia tentar falar o que aconteceu quando uma enfermeira entrou no quarto interrompendo a conversa, para alívio de Kimberly.
Assim que a enfermeira começou a conversar com Douglas, Kimberly aproveitou para sair do quarto, iria deixar que os médicos contassem a ele. Não tinha coragem de contar que toda a família de ambos havia morrido no acidente.
Não precisou muito para saber quando Douglas ficou ciente do acontecido. Quase todo o hospital ficou sabendo. Foi logo depois que o médico entrou no quarto. Houve uma gritaria tão absurda que praticamente todos os pacientes saíram de seus quartos para ver o que é que estava acontecendo.
Douglas simplesmente não aceitou o que aconteceu e entrou em estado de choque. E, desde aquela data, ele vivia na casa de repouso que o hospital mantinha. A médica que cuidava dele dizia a Kimberly que um dia Douglas iria melhorar, bastava ter um pouco de paciência e de esperança.
“É difícil ter esperanças, quando a gente sabe que está praticamente sozinha no mundo...” — pensou Kimberly tristemente.


— Aqui estão os copos! — Gritou Douglas que acabava de chegar, tirando Kimberly de suas lembranças.
— Vamos beber nosso chá então — disse Kimberly brindando com o tio.
Enquanto bebiam o chá e comiam as bolachas, Douglas perguntou:
— Como vão as atividades na empresa?
— Vão bem, estou muito contente. O pessoal lá é super legal, pelo menos dá para eu pagar as contas do meu apartamento, né? — Disse sorrindo.
— Algum namorado em vista? — Perguntou de repente.
Kimberly quase se engasgou com o chá de hortelã. Essa era novidade, seu tio queria saber como andava sua vida amorosa.
Ela suspirou e respondeu:
— Tem um rapaz que trabalha comigo, que é muito legal. Todo mundo lá sabe que ele está super apaixonado por mim, eu sei, todos sabem, só que eu não sei se ele é a pessoa certa...
— Ora, mas você só vai saber tentando... — disse Douglas enquanto terminava de comer uma bolacha recheada. — Veja eu e sua tia, por exemplo: quando nos conhecemos, nós não sabíamos se iríamos dar certo, mas tentamos e hoje estamos super felizes... Pena que ela esteja tão longe agora...
Novamente Douglas estava usando a fuga para tentar evitar o óbvio: sua esposa nunca mais estaria com ele, ela estava morta. Kimberly sabia disso muito bem, mas entrava no jogo do tio. A médica dera essa recomendação a ela. Não adiantava nada ela ficar discutindo com o tio sobre o que era verdade ou não, o melhor era entrar no jogo dele e, quando ele estivesse melhor, aos poucos iria acabar aceitando a realidade.
— É verdade tio, mas quando as coisas melhorarem, com certeza ela voltará.
Ele dirigiu um sorriso esperançoso à sobrinha e disse:
— Pois então, quando vai me apresentar seu namorado?
Kimberly não pôde deixar de sorrir. Mal saíra uma noite com Martin e seu tio já o chamava de namorado, provavelmente, ele nem sabia o nome do “suposto” rapaz.
— Tio, você não tem jeito mesmo... eu só saí com ele uma vez... gosto dele, mas ele ainda não é meu namorado.
— Eu sei, mas é assim que as coisas começam. Ora, — disse colocando as mãos na cintura — como é que você acha que as coisas começam?
Kimberly terminou de beber o chá e respondeu enquanto olhava para uma árvore muito bonita que estava mais a frente deles:
— Eu acho que as coisas começam como mágica... com um certo encanto. Quando a gente coloca os olhos e então sente o coração bater mais forte. É como se a gente já soubesse que aquela pessoa foi feita pra gente...
Ele passou as mãos pelos cabelos e disse enquanto balançava a cabeça:
— É muito difícil acontecer alguma coisa parecida com isso... acho até que é impossível. A gente só vê isso nos contos de fada, minha sobrinha.
Essa era a opinião de Douglas, mas Kimberly sabia que, em algum lugar, isto era possível e não era somente um conto de fadas.
— Você já está com vinte e cinco anos, já está na hora de encontrar alguém legal para passear com você, para se divertir. É um programa de índio ficar visitando seu tio de quinze em quinze dias...
— Essa é boa, quem disse que é um programa de índio vir até aqui pra falar com você, quer parar com isso, tio? — Perguntou fingindo-se zangada.
— Está certo, não está mais aqui quem falou — disse abraçando-a.
Ficaram por mais uma hora e meia conversando sobre banalidades quando a enfermeira chegou.
— Bem, senhor Longaray, já está na hora de entrar... — avisou com o jeito calmo e paciente típico das enfermeiras.
Ele olhou meio tristonho para a sobrinha e disse:
— Bem, vou ficar esperando novidades daqui a quinze dias, então. Veja se dá uma chance ao rapaz... — falou sorrindo enquanto acompanhava a enfermeira.
— Tá certo tio, irei pensar no que me disse — respondeu enquanto começava a recolher e colocar as coisas de volta à cesta de piquenique.
Estava na hora de voltar para casa.



Até a próxima,